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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O Espelho - Parte II

Dizem por aí que todo ser humano tem esta necessidade de se identificar com alguém, de ver-se em algo para sentir-se real e presente no mundo. 

Suponhamos agora que os espelhos nos mostrem nossa própria existência, contudo num outro ponto do tempo e espaço, sendo este indeterminado. Dessa forma, qual o significado de procurarmos por aprovação (que seja a nossa própria para fins de exemplo), já que esse outro ser pode representar tudo aquilo que podemos ser apenas num imaginário particular?


...



Ele se olhou, se viu ou se encontrou por mais um momento, além de todos os outros infinitos em que qualquer ser humano normal procura por seu reflexo apenas para conferir se está tudo em ordem. Desta vez não estaria. Não era um reflexo qualquer e sim uma busca por autoafirmação.

Tudo poderia ser diferente em sua mente: acabara de perceber que sua voz, a qual nem mesmo gostava, seria nesse imaginário uma voz masculina, forte, cheia de nuances misteriosas e enredadoras. Por um lado ele era um ser social, amigável e interativo; esse seu outro existir lhe permitia ter uma daquelas personalidades peculiares de escritores profundos e observadores, com seu modo de exercer prolixismo até mesmo em pensamentos triviais.

Os questionamentos iam além da curiosidade. Ele tinha essa busca essencial pela compreensão, pela arte de elucidar toda e qualquer possível brecha. Não era, entretanto, algo que o satisfazia. Não se sentia pleno com a resolução dos seus mistérios, pois a sede de mais buscas o fazia criar mais possibilidades e, com elas, mais espaços vazios clamando por serem preenchidos.

Tinha também essa alternância contrastante entre ser jovem, moderno e ativo, e atuar com a acepção anciã de sua essência. Era uma dificuldade constante de decidir se o que via em seu reflexo era o que ele podia ser agindo naturalmente, ou o que queria ser (agindo conforme pensava que fosse o seu eu real). Isso o fazia ser ambos, e ser todos os possíveis, e ser rico e culto e admirável ao mesmo tempo em que não passava de um ser humano comum.

domingo, 30 de dezembro de 2012

O espelho - Parte I

Era essa questão de não conseguir distinguir entre o racionalismo de sua essência e os rompantes de intensa necessidade de autoconhecimento que o faziam não saber quem realmente era. E isso é que o fazia ser quem ele era.

Cada uma das excentricidades de um perfeccionista fazia com que se sentisse mais seguro sobre suas escolhas e perspectivas. Estava ali trabalhando, certo sobre os resultados que cada um dos cálculos teria e sobre o que significaria para o empregador. Vivia nesta rotina de calcular, verificar, estudar os gráficos, predizer coisas. 

Predizer coisas. Esta parte dele o fazia muito mais que um humano comum. Ele podia sentir as respostas, prever as ações, como se conhecesse de dentro para fora o que ou quem estava diante dele. Era como um arrepio quando o fazia pois o mistério sempre foi algo excitante e, para ele, soava como um absurdo ter essas características disputando entre si dentro de sua mente.

Era como ter duas almas, ser duas almas ao mesmo tempo... Algo estava sempre ali desafiando a coerência e lógica às quais tanto se apegava. Ele tinha essa outra alma, essa parte intensa. Tanto que cada sensação pesava e doía como se estivesse preenchido inteiramente por ela. Ele era a própria emoção que sentia. O lógico o fez ficar confuso, e por isso ele se sentia vivo.

sábado, 11 de abril de 2009

Turvo Turbilhão II


Enfim, um meio... para começar.



É bom voltar ao lugar de meditação, de desabafo depois de um bom tempo sendo consumida por dúvidas e novas idéias. Uma correção: não acredito que tenha sido consumida pois nada em mim diminuiu ou mesmo acabou, creio que foi mais um acúmulo, uma edificação que só precisa ser melhor calculada.

As palavras, as escritas principalmente (por sua solidez, quem sabe) me fazem respirar melhor, como se me livrassem de gases tóxicos que me impedem de pensar de maneira clara (não que eu consiga ser tão clara com meus pensamentos). Sentir as palavras fluindo de meu sangue, de meus olhos e atravessando os meus dedos como que carregando minhas sensações mais profundas mescladas às mais suaves, senti-las mostrando o que há em mim sem vergonha e com tão pouca nudez declarada que nem pareço mesmo desnuda, sentir-me mostrada com toda a cautela que cada palavra torna possível é uma parte de uma desejada paz, é um alívio, um ar puro e refrescante para a alma.

Dúvida 1: será egocêntrico pensar que as palavras que saem de mim mesma possam me fazer tão?
Dúvida 2: e essas minhas filhas tem alguma funcionalidade, para os outros, que não a que tem para mim?
Dúvida 3: por que escrever tanto e com tanta paixão se talvez só eu seja a beneficiada, só eu enxergue o poder e o valor que acredito que as palavras tem?

Gosto das dúvidas porque me fazem pensar mais e melhor, me fazem ver lados que se houvesse apenas a verdade que não pode ser discutida eu não veria...
Gosto delas mesmo sabendo que me fazem parecer (para os outros, novamente) a mais complicada das criaturas, a menos evidente, a menos concreta e outras centenas de adjetivos que provavelmente facilitariam a minha convivência em grupo. É como gostar de meus defeitos porque me fazem diferente e única. É acreditar que as dúvidas podem abrir a mente, expandir a visão de quem as tem.

E eu acredito nisso.

E, quem sabe, isso faça eu acreditar em mim (de vez em quando).






Inté.

Turvo Turbilhão I



Um desfocado autorretrato


Curioso como gosto de enumerar as coisas, não?
Quem vê assim pensa que eu sou a personificação da organização ou tão metódica a ponto de pensar rapidamente numa solução para tudo pelo simples fato de saber o que priorizar.

Pois bem, ser organizada é para mim uma daquelas metas que se tem e que quase não se consegue efetivamente alcançar, embora aparentemente (leia-se: para os outros) já seja concreta.

Sobre enumerar... hum, digamos seja, de fato, a esperança de que o pensamento e a inspiração (que em seu sentido mais honesto seria "transpiração") não morram nesta primeira etapa, esta que deveria ser a segunda ou terceira de outros primeiros pensamentos que não tiveram (ainda) vida o suficiente para ter continuidade.

Não se precipitem, leitores, achando que todos os meus primeiros tiveram fim sem o esperado meio. Digo que apenas a dúvida é que cessou um pouco o seu fogo em minha mente, ou melhor, abrandou, pois dúvidas em mim jamais cessam.

Cliquei aqui no botãozinho "Nova Postagem" com outras idéias de falas e textos, mas sempre me deixo levar pelos meus dedos e acabo digitando o que sai espontaneamente e não o que eu havia pensado. Espero que percebam isso diante da pouca elaboração de minha lógica (risos).

Agora me vem a dúvida, não a dúvida que me levou a escrever desde o começo e nem uma em especial que tome mais atenção do que as outras, como bem sabem sou feita de dúvidas e elas me movem para cima e para baixo horizontalmente me fazendo ver e rever conceitos, mas a dúvida que surgiu agora no meio dessa postagem "turva": e o que faço com o que havia pensado escrever antes de começar a escrever o que não havia pensado?

Começo agora um novo começo com uma nova dúvida no meio ou fim de um texto espontaneamente parido ou deixo para um tal textinho número II consolidando, assim, mais um número em sequência a este primeiro dos meus primeiros que nunca tem meio e fim?


Sorte que cérebro não sua...




Inté.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Análise de uma frase (I)


"Eu sou um coração batendo no mundo" LISPECTOR, C.


Começo com esta citação porque vejo nela muitos significados. Não só o pensamento romântico de quem enxerga alguém que está sempre apaixonado ou não vive sem um amor, mas o sentido holístico de cada palavra.

Primeiro, se observarmos o fato de haver um pronome em primeira pessoa poderemos deduzir uma individualidade relacionada com a coletividade da palavra Mundo. É o ato de ver-se como parte de um mundo no qual se quer estar, ou um desejo de estar num mundo que não lhe é acessível. Também podemos tomar o termo Mundo como o Eu em si, Eu sou o mundo, Eu sou um mundo, Eu sou algo dentro de meu próprio mundo, ou Eu sou uma alma dentro de um mundo que é o meu corpo.

Agora, se pensarmos nas conotações da palavra Coração, teremos outras inúmeras possibilidades: um órgão ou apenas um músculo, uma pequena parte de um todo, parte esta que comanda todo o resto mas sem este também não pode existir ou sobreviver; um símbolo de sentimentos bons e ruins, de percepções e seus impactos; um baú de laços afetivos; um poço de sensibilidade muitas vezes não compreendida... Algo que vive, pulsa, emana sons e calor específicos que variam de acordo com o tudo que o envolve, como o modo com que o mundo gira...

Eu sou, então, tudo isso?
Eu sou um pequeno fator que faz um mundo inteiro viver?
Serei eu algo que poderia abalar todo um sistema caso parasse de bater, de viver?

Pensar isso dá uma certa satisfação por um lado, já que é se considerar importante, eficaz. Mas, por outro ângulo, ver-se tão responsável, tão influente, é de certa forma desconsertante...

E se pensarmos só na conotação romântica da frase?
É o mais óbvio, fácil, e também significativo.

Ser um coração batendo no mundo é ter necessidade e capacidade de amar acima de tudo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Dorothy #07

A vendedora de máscaras





Mais uma surpresinha: não é que aparece no meio do caminho da sonhadora uma moça com uma cesta vendendo alguma coisa?! Imagina só, a tal senhorita não tinha rosto e sim centenas de máscaras que usava conforme a necessidade de envolver e convencer alguém a comprar. A princípio isso até parece meio hostil, alguém que usa máscaras... Mas se observarmos mais sutilmente o que rodeia essa situação talvez até nos comovamos.

A menina, olhando as várias máscaras oferecidas, começou a absorver o que pôde das reações e das palavras da vendedora sem rosto. Foram conquistando-se uma à outra até que a senhorita da cesta conta algo do seu passado. Um bruxo chamado Cronus havia lhe roubado a face e enfeitiçado o seu destino para que ela perturbasse a todos que cruzassem o seu caminho e lhes vendesse máscaras, fazendo-os deixar de ser sinceros e autênticos. Ela não fazia o que lhe foi mandado, uma vez que achou muito cruel que tantas pessoas fossem destituídas de sua espontaneidade, então preferiu pagar sozinha vagando por aí com várias máscaras mas sem um rosto próprio.

Ela aprendia com cada situação a máscara que deveria usar, e assim seu rosto sem traços ia se adaptando de uma forma que até podíamos ver expressões sendo criadas. Era na verdade uma moça muito mais ingênua e frágil do que parecia, alguém que assustava com a aparência e encantava com a essência.

Em determinados momentos a buscadora até sentiu-se diante de uma mulher dissimulada e manipuladora, contudo a sensibilidade que apareceu por diversas vezes a fazia mudar completamente de opinião. A menina, então, disse à vendedora que faria o que fosse possível para ajudá-la com o feitiço, e que leu no seu manual que qualquer magia, seja do bem ou do mal, pode ser alterada com a força do sentimento, com a existência do amor. A moça disse que não sabia como poderia encontrar o amor já que ele nunca a reconheceria assim, sem rosto. A resposta foi a seguinte: "O amor não é cego, mas os olhos que usa para ver melhor do que qualquer visão afiada são os do coração. Não importa o que você é por fora, o amor pode te ver como é por dentro, e é assim que você vai ser reconhecida e se libertar".

Na hora pareceu meio clichê essa coisa de olhos do coração, mas a verdade é que nem sempre a razão define sozinha nossas reações, ela estará sempre aliada a uma intuição, a alguma emoção. A moça era apenas uma buscadora tanto quanto a personagem principal deste conto. Ela buscava descobrir quem era, descobrir o quanto deveria se emocionar ou ser incisiva, procurava aprender a direção mais sensata a seguir. Tinha algo em comum com a menina, e isso as uniu.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Dorothy #06

Marjorye



Dentre as coisas que encontrou no seu caminho, uma das mais surpreendentes para a menina foi uma moça com características, digamos, peculiares.

Imaginem que a tal criatura vinha de outro planeta, e podia mudar o tamanho conforme sentisse necessidade. A princípio, ela era tão grande que podia engolir o planeta Terra sem a menor dificuldade. Grande e assustadoramente delicada, o que não era nada proporcional.
Tinha cabelos ruivos alaranjados, da cor do sol quando se põe, e sua pele mais parecia que se via o céu de um telescópio, um manto coberto de estrelinhas. Tinha formas belas de mulher e tentava fazer caretas que a pudessem proteger, mas, pobrezinha, de tão meiga mal podia fazê-las que ficava ainda mais encantadora.
Quando não sentia-se à vontade, seu tamanho era quase de um grão de areia. Não desses em que se pisa e mal se nota, mas um grão que viaja com o vento e que pode entrar no olho de qualquer um e lhe roubar a visão. A perigosa moça que a menina rapidamente passou a admirar.

De perigosa, mesmo, não tinha muito. Seus olhos tinham um brilho perolado que a fazia parecer mais linda a cada novo olhar, como duas jóias simétricas capazes de fulminar um mundo inteiro ou de reconstruí-lo de um mover de pupilas. Contou que fora um presente para uma deusa de seu planeta chamada 'Rosa', que no planeta Terra também era denotada como divina. Filha, então, de deuses, ela tinha certos privilégios em sua casa, mas queria ser independente e resolveu passear pelos planetas à procura de alguma utilidade. Ela queria era fazer a diferença.

A menina, conversando com a tal deusa dos cabelos de pôr-do-sol, via-se cada vez mais encantada com a sua história e com as afinidades que descobriram e sentiu nascer um amor fraterno pela doce gigante, um elo que as fazia irmãs. Pensavam coisas tão parecidas a respeito deste mundo (note-se que a menina buscadora não se sentia muito à vontade em relação aos demais terráqueos) e riam ou choravam com as situações menos esperadas. Havia uma sintonia inexplicável e que as fez planejar até seguir juntas boa parte do caminho de buscas.

Seu nome era uma espécie de enigma, pois parecia uma mistura de Marjory e Marjorie, que, em idiomas diferentes, pode significar "Pérola" ou "A suprema". Aliás, ela era um completo enigma, fosse no seu jeito de se vestir ou de falar. Não havia estereótipo conhecido que se adequasse à grande moça, não só porque ela fosse especial, mas não havia neste mundo, também, alguém sequer parecido, quem dirá igual. A menina concordava em chamá-la de pérola, tamanha a raridade e a admiração que provocava (às vezes chamava-lhe de suprema só para agradar).

Passaram um bom tempo falando de suas expectativas e de seu passado, ambas demonstrando sua opinião sincera uma sobre a outra, pois já tinham tanta confiança mútua que nada lhes podia atrapalhar. Criaram novos mundos, idéias, formularam sonhos que poderiam realizar juntas (e mesmo que não o fizessem, só o fato de ter pensado em estar juntas nesses momentos especiais já valeu para a menina boa parte de sua busca, como um presente que foi achar uma companhia tão especial).
Deixaram-se ir, então, prometendo retorno para contar todos os detalhes de seus caminhos percorridos e compará-los, rindo sempre, como adoravam fazer. A Deusa-Pérola-Suprema, num gesto que emocionou a menina dos cachos, deu-lhe algumas de suas pérolas (que eram sua partícula mínima estrutural - do que ela era realmente feita) em forma de pulseira, para que levasse consigo apenas como empréstimo, garantindo que se encontrariam novamente.

E assim seguiu a saltitante, lembrando-se a cada segundo e a cada experiência que adoraria contar tudo a Marjorye e parecer mais feliz com pequenas coisas do que tanta gente só consegue sonhar ser.

sábado, 22 de novembro de 2008

Dorothy #05

Um presente



Parecia efeito especial de cinema quando, numa tarde, ela passava por um campo e um vento arrancou diversas flores que voaram sobre ela como dadas de presente. Umas duas ou três prenderam-se em seus cabelos e ela sentiu-se acariciada pelas que tocaram suas mãos e rosto, doando-lhe seu perfume e muito de sua beleza. De repente algumas nuvens estavam mais próximas e era como se ela flutuasse no céu, e quando fez-se noite cada estrela estava tão perto de suas mãos que podia ser alcançada e guardada nos bolsos da menina.
Por que aquilo estava acontecendo?! Quem lhe dera tamanho presente?

Andando mais um pouco por seu caminho, algo logo lhe saltou aos olhos: um cavalo branco pastando. Com a certeza de que já vira aquele cavalo antes e cheia de esperança, o seu coração tomou as rédeas da situação e a levou (aos pulos) em frente. Agora sabia que aquela sensação sublime com as flores e as nuvens era só um aviso de que o presente maior estava por vir.

Sentado sobre uma pedra, olhando o horizonte como ela já havia estado há pouco, a imagem de um príncipe surpreende a menina (mas não o seu coração que tinha certeza de vê-lo novamente), especialmente quando ele se vira devagar e se depara com o olhar buscador com que sonhara nos últimos dias e os olhos dele e dela se encontram, se entregam, se fazem ternos e amantes de um só piscar. Passaram algum tempo conversando com esses olhos e então, quando já não podiam ficar distantes, se abraçaram. De longe se podia ouvir as batidas sincronizadas de seus corações.

Conversaram por um longo tempo, e o príncipe contou que lembrava da menina a cada vez que olhava para sua princesa e não encontrava nela o que gostaria de ter. A tal princesa não era exatamente o que ele esperava e então, pensou ele, a verdadeira princesa já tinha sido encontrada, mas teria ficado pelo caminho por uma infeliz decisão. O príncipe descobriu que seu mundo havia sido tomado e estava determinado a achar quem o tinha feito. Pegou seu cavalo e refez todo o caminho de volta, observando na natureza sinais que o levassem a quem procurava.

O encontro, o abraço, a conversa... Tudo aconteceu de forma tão natural que parecia que eles estavam destinados um ao outro desde o início desta estória, ainda que nem se tivesse pensado em príncipes ou flores que voam. Havia tanto carinho que qualquer escritor de conto de fadas pagaria pra contar aquilo, porque era visível o AMOR, e era inégavel que eles já eram um do outro, estivessem longe ou tão perto que mal se pudesse distinguir seus corações.

Caminharam de mãos dadas enquanto viam as mais belas paisagens, fossem rios dourados pelo sol que refletia ou mantos estrelados com uma lua tão grande e amarelada que nem parecia uma lua. Seus olhos tinham tanto brilho que se podia perceber de longe que haviam se encontrado, e não importava por qual caminho seguissem, estariam sempre juntos, pois amores que nascem de forma tão natural são eternos e imutáveis. Este amor era um desses.

Mas e agora, como seria seguir este caminho só com metade de um coração, já que a outra metade fora dada ou tomada por um príncipe de sonhos que chegou sem avisar?

Não importava o resto do caminho, a buscadora sentia-se feliz como nunca estivera e assim queria ficar pra sempre.

Dorothy #04

Uma breve pausa



E o que se via de onde ela estava era um belo pôr-do-sol e o horizonte alaranjado de fim de tarde. Aquele cheiro de sol partindo a fazia lembrar-se de muitas coisas que teve e desejar outras com que sonhava frequentemente.
Sentou-se sob uma árvore não-sei-de-que, encolhidinha como ainda fosse um feto protegido do mundo no útero materno, e agarrada aos joelhos flexionados deu um suspiro profundo como há muito não dava, desses que fazem parecer que se expeliu todo o cansaço e as preocupações numa baforada só, e tudo por dentro estaria limpo.

Uma leve brisa bagunçava os cachinhos da menina que atrapalhavam um pouco quando voavam pela boca e pelos olhos, mas até mesmo seus movimentos para pôr os cabelos no lugar pareciam ensaiados. Alguns raios amarelos pousavam no rosto dela, e era uma imagem tão delicada, seus olhos ficavam meio translúcidos e sua pele quase que tinha luz própria. O jeito com que ela olhava ao redor era como se medisse coisas que já eram suas. Tinha na expressão muito orgulho do que via, mas parecia faltar algo. Sempre parecia.

Sempre fora difícil entender o que se passava com aquela alma grande demais para o corpo que tinha. Ora de uma felicidade que poderia mover o mundo sozinha, ora de uma aparente melancolia ou insatisfação, as sensações eram fugazes e intensas e ela tinha muita sede de sentir. Nada se comparava ao arrepio de tocar o mundo de leve com a pontinha dos dedos, ou aspirar o cheirinho agradável do amor, ou sentir o sabor de amizades e palavras de carinho...
Como compreender alguém tão sutil e tão profunda? Por que para ela as coisas que satisfaziam todos os outros seres humanos não faziam assim tanto sentido?

Levantou-se, espreguiçou-se até ter certeza de que tinha dois centímetros a mais de tanto que se esticara, pegou suas coisas planejadamente jogadas ali ao lado da árvore e seguiu, pensando o que estaria buscando nessa parte do seu caminho. Isto embora nunca planejasse suas buscas e tivesse sido surpreendida todas as vezes em que encontrou algo bom. E então, com passos firmes, foi-se ela fazer o mundo girar novamente.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Dorothy #03

As coisas que encontrou no caminho



O pior de viver uma viagem cheia de aventuras como essa era ter de deixar para trás as coisas pelas quais ela se apaixonava no caminho.

Uma delas foi um príncipe que estava perdido, não sabia do seu cavalo e nem pra que lado ficava seu castelo. Era estranho ver aquela fragilidade dissimulada, pois ela achava que príncipes eram perfeitos, sem defeitos e sem dúvidas. Deveriam ser altos e fortes, românticos, atenciosos, tudo que num mero mortal seria impossível.
Bem, só para começar, um príncipe perdido já era meio incomum... Mas ela ficou curiosa para saber como e por que ele estava ali e não vivendo um conto de fadas como era de se esperar.

Ela primeiro o analisou de longe. Viu suas roupas elegantes, seu porte, seu jeito de estar sentado ali com cara de quem perdeu algo importante, ou de quem procura algo que ainda não teve. Às vezes parecia exausto, outras vezes esperançoso...

Ele então a viu e ela, apesar de atrevida em certos momentos, ficou envergonhada. O príncipe veio até ela perguntar se era uma princesa, mas a moça não pôde alegrá-lo afirmando que era o que ele há tanto esperava. Por alguns instantes pensou, procurou uma forma de o ser, mas percebeu que era apenas DONA de mundos incontáveis, mas não chegou a ser Rainha ou Princesa de nenhum deles. Talvez de um, mas que ela havia deixado para trás numa decisão triste e necessária...

Aliás, ela ainda estava entristecida pela decisão que tomara quando suas atenções se voltaram àquele moço que lhe despertou a curiosidade. Parou por alguns instantes para investigar sobre a vida dele, perguntou-lhe algumas coisas, de onde vinha, o que fazia para sobreviver e como havia ido parar naquele caminho. Parecia que uma amizade cheia de afinidades seria construída, com olhares sinceros e afetos que eram demonstrados tão espontaneamente que chegavam a assustar. Passaram horas conversando, brincando e ela sorria e saltitava ainda mais do que quando chegara ali. Estava feliz por ter encontrado um príncipe e descobrir que de alguma forma eram parecidos. Será, então, que ela não seria uma princesa?!

Surpreendentemente, enquanto conversavam, algo rouba a atenção do príncipe e o faz sair dali quase que correndo, agradecendo tê-la conhecido e por todos os momentos bons que passaram juntos. Pegou sua capa e seu cavalo e seguiu radiante em direção a algo pelo qual procurara por tanto tempo e que, como que por milagre, apareceu ali no seu caminho. Era uma princesa. A sua Princesa. Ele a tomou nos braços e a colocou sobre seu cavalo, como se espera de qualquer conto de fadas, e seguiram na direção oposta à que estava a menina dos mundos.

Um tanto surpresa (ou talvez decepcionada), a menina refletiu um pouco, olhou por vários instantes na direção em que príncipe e princesa haviam seguido, mesmo quando já não se podia vê-los no horizonte, respirou fundo algumas vezes, lembrou-se do que carregava consigo e de seus objetivos, leu qualquer coisa no Manual e seguiu. Fora só mais um mundo. E ela descobriu que ser dona de mundos não significava reinar sobre eles.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Dorothy #02

O 1º Desafio



Sua jornada já havia começado e ela ainda não conseguira ver tudo o que havia programado. Sentia-se pesada, mesmo que não estivesse tão presa assim. Tentou seguir no caminho amarelado, andava, observava, tateava centenas de coisas e não se satisfazia.
Era confuso pensar que ela tinha tudo o que sonhara ali ao seu dispor e não estava completa. Tinha a aventura, os amigos, a disposição, a ousadia e coragem, o Manual e todos os mundos que já havia devorado. Muito mais do que qualquer outra pessoa sonhou para si.
Aquilo era revoltante, talvez desesperador.
O que fazer quando tudo já é perfeito?


Ela sabia o que fazer, mas se recusava a aceitá-lo. Não poderia abrir mão do que tão duramente havia sido conquistado e que fora tão bem medido e encaixado em sua vida, como algo com o que se sonha por muito tempo e enfim se consegue. O difícil é continuar apaixonado por isto depois de conquistá-lo, já que às vezes a paixão é mais pela busca do que parece impossível do que pelo objeto real da luta.

Descobriu naquele instante que ter tudo era muito mais duro que sentir falta de algo muito desejado. Pois o vazio que se instala quando já não há o que buscar é tão devastante quanto perder a própria alma. Ela pensava nisto. Admirava os que têm o que buscar, ainda que passassem por um sofrimento arrasador, mas estavam ali movidos por uma ânsia de ter o que queriam, enquanto quem já o tem apenas vive uma quietude, uma conformação. E ela não queria viver assim, já que sua determinação e sede de novas conquistas eram o que tinha de mais visível e forte, e o que a movia a ter tantas idéias e vislumbres.

Meditou e sofreu por longos instantes cogitando as suas opções: ter tudo o que havia conquistado e sentir-se incompleta ou abrir mão de algo que amava muito e ter espaço para voltar a buscar?! Pensou que sofreria qualquer que fosse a decisão, e pesou todo o tempo que aceitou aquele mal estar por achar que tudo já era perfeito e não havia motivo para sofrimentos. Sabia que decepcionaria, machucaria, talvez até matasse alguém por dentro, mas não podia ser mais uma vez altruísta e deixar de lado seus próprios sentimentos. Pesou, pensou, mediu, calculou, desistiu, retomou e, enfim... decidiu!

Olhou para dentro de si, na categoria "Coisas que mais Amo", sentiu o corte em carne viva no seu peito mas escolheu um amor para libertar de si, um amor que não lhe havia sido dado como família ou coisas intrínsecas ao ser, mas um muito forte e muito desejado, que deveria estar ali até seu último suspiro, e estaria, porque ela não deixaria de tê-lo e nem ele de tê-la jamais, pois ela foi daquele amor desde o momento em que ambos se conquistaram mutuamente, e seriam eternos um para o outro, eternamente um do outro. Isso deu-lhe forças para continuar e arrancar do peito uma parte, que deixou guardada num santuário do qual poderia resgatá-la um dia e reintegrá-la a seu corpo.

Esperanças, desejos, medos e milhares de sensações a tomaram novamente, como quando tinha uma nova paixão e corria qualquer risco para vivê-la.
Talvez a perda tenha funcionado.



Talvez perder algo amado seja mesmo uma solução.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Dorothy #01

Ela



De mulher só tinha o tamanho dos pés.
A idade também não era pouca, mas todo o resto era de menina.
Um jeitinho quase saltitante de andar, uma fala mansa e cheia de "pretensões despretensiosas" que segundo seu mentor intelectual e autor do misterioso Manual eram as piores, não por serem ruins, mas por serem poderosas e difíceis de se controlar.
Seus cabelos eram milhares e milhares de molinhas pretas, tantas quantas estrelas se pode contar no céu, e andavam por aí como que fossem pura energia em volta daquela cabecinha, desprendidos da matéria e incontíveis, emoldurando um rosto meigo mas de traços fortes, como sobrancelhas imprecisas e um queixo atrevido, uma boca que mais parecia um coração com todos os sentimentos ali completamente expostos, um nariz que mediava a disputa entre a boca e os olhos, e estes, os olhos, os mais perigosos, eram dois buracos negros nem sempre negros, que variavam de um castanho avermelhado a qualquer outra cor quente possível de acordo com o que engoliam, pois nada naquela menina era frio, nem sequer uma cor.

Falemos de engolir.
Era seu verbo preferido e mais praticado. Além de comer delícias carboidráticas, ela era uma gulosa em termos menos tangíveis. Tomava com os olhos tudo o que lhe fosse possível, apalpava, decorava, usava todos os sentidos e, por fim, engolia com seus buracos negros, nunca mais devolvendo.
Essa era a arma que ela tinha para seguir em sua busca por uma tal cidade onde tudo o que ela quisesse seria possível, e pode-se imaginar que só essa propaganda já deve ter encantado essa menina a ponto de fazê-la pular de onde estivesse e correr para achar esse lugar. Assim foi feito.
Sua bagagem era, além de suas poderosíssimas cavidades cósmicas oculares, seu par de óculos frequentemente necessários, lanchinhos não perecíveis, lápis e um Manual que achou um certo dia num certo banco de praça e para o qual precisaria dos óculos.
Ouviu falar de uma estrada de tijolos amarelos, (talvez tenha lido mas com tanta coisa gulosamente engolida ela já nem sabia mais) e era este o seu primeiro objetivo de uma série deles:
encontrar o tal caminho.
Uma bela aventura para uma moça que tinha tanta fome delas. Fome de muitas coisas, aliás.


Leitura útil: Buraco Negro







Inté.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Vocabulofagia

Se eu fosse uma palavra, não sei que função sintática teria.
Talvez fosse um verbo cheio de transitividades,
usaria os objetos diretos e indiretos como complementos
momentâneos e descartáveis.
Mas um verbo intransitivo também seria interessante,
cheio de psicodramas e subjetividades,
essas coisas intangíveis que a gente adora usar pra se sentir humano.
Não sei se seria melhor ser inconstitucionalissimamente grande,
ou um monossílabo só, tônico, mas monossílabo.
Entretanto, acho que ser curtinho e entonado é ser objetivo,
então já descartaria todo o sonho de intransitividade,
de auto-suficiência.
Quem sabe um advérbio, um adjunto adnominal
ou qualquer outra possibilidade gramatical
que não pudesse ferir uma intimidade com outras palavras,
pois importante é ter acesso aos palavrões experientes que já viram muita coisa dessa literatura que há entre o céu e... a terra?
Por enquanto me contento em ser um substantivozinho,
ou um pronome pessoal do caso reto,
variando de pessoa,
pois às vezes sou tu, sou ele ou ela e, raramente, eu.
Me distraio sendo uma palavrinha útil mas não muito chamativa,
para poder transitar por aí tendo morfologia leve, rima fácil.
Não sou uma palavra comum, dessas que se costuma usar cinco vezes numa mesma frase, e gosto de ser assim, pouco ouvida, pouco grafada, um tanto duvidosa em termos semânticos e bem-quista pelos mais cultos e letristas.
Como toda palavra, meu desejo é ser a base de uma canção bem feita e ter música intrínseca à pronúncia.
Desejo também ser parte de gramática e língua vivas,
para que uma outra vontade seja possível:
Ter muitos, muitos significados.











Inté.