Dizem por aí que todo ser humano tem esta necessidade de se identificar com alguém, de ver-se em algo para sentir-se real e presente no mundo.
Suponhamos agora que os espelhos nos mostrem nossa própria existência, contudo num outro ponto do tempo e espaço, sendo este indeterminado. Dessa forma, qual o significado de procurarmos por aprovação (que seja a nossa própria para fins de exemplo), já que esse outro ser pode representar tudo aquilo que podemos ser apenas num imaginário particular?
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Ele se olhou, se viu ou se encontrou por mais um momento, além de todos os outros infinitos em que qualquer ser humano normal procura por seu reflexo apenas para conferir se está tudo em ordem. Desta vez não estaria. Não era um reflexo qualquer e sim uma busca por autoafirmação.
Tudo poderia ser diferente em sua mente: acabara de perceber que sua voz, a qual nem mesmo gostava, seria nesse imaginário uma voz masculina, forte, cheia de nuances misteriosas e enredadoras. Por um lado ele era um ser social, amigável e interativo; esse seu outro existir lhe permitia ter uma daquelas personalidades peculiares de escritores profundos e observadores, com seu modo de exercer prolixismo até mesmo em pensamentos triviais.
Os questionamentos iam além da curiosidade. Ele tinha essa busca essencial pela compreensão, pela arte de elucidar toda e qualquer possível brecha. Não era, entretanto, algo que o satisfazia. Não se sentia pleno com a resolução dos seus mistérios, pois a sede de mais buscas o fazia criar mais possibilidades e, com elas, mais espaços vazios clamando por serem preenchidos.
Tinha também essa alternância contrastante entre ser jovem, moderno e ativo, e atuar com a acepção anciã de sua essência. Era uma dificuldade constante de decidir se o que via em seu reflexo era o que ele podia ser agindo naturalmente, ou o que queria ser (agindo conforme pensava que fosse o seu eu real). Isso o fazia ser ambos, e ser todos os possíveis, e ser rico e culto e admirável ao mesmo tempo em que não passava de um ser humano comum.




