segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O presente #7

A revelação



O menino-homem parecia ainda mais encantador, apesar do susto que a menina tomara por se deparar com a possibilidade de aquilo tudo ser real. Era impressionante como ao mesmo ele era belo e forte, vistoso e protetor como um grande animal da selva, senhor de seu bando, e era também pequeno e frágil, inquieto e também sonhador como um menino ao qual só se deseja dar colo e contar histórias de aventuras. Sem dúvida ele tinha algum poder sobre ela, e sobre tudo o mais que também parecia mais belo quando próximo do seu brilho.

Com ele a menina experimentava algo tão etéreo, incomum, algo tão especial que não podia ser mesmo real, mas era.

O mestiço disse-lhe então que não se assustasse pois não eram do mesmo mundo. Cada um surgiu em um mundo diferente e estes eram separados por algo tão grande quanto um mar intransponível, mas a força do desejo de encontrar alguém tão belo quanto a menina o fez deslizar pelo universo tornando-se parte dele, até chegar a um mundo comum como que fosse uma dimensão criada apenas para os dois, onde tudo era belo, perfeito e possível. Eles tinham se comunicado todo esse tempo a partir da força com que cada um desejava o outro como algo complementar a si, como o necessário ao seu próprio equilíbrio, equilibrando assim o seu próprio universo.

Novamente o moço se fizera ruborizado, e após superar uma timidez branda e sedutora, contou que partilhava dos mesmos sonhos que a menina e com isso se ligaram de tal forma que um se tornou o sonho vivo do outro, ultrapassando as dimensões de tempo e espaço para que vivessem algo tão esplêndido quanto sonharam.

A menina então, com seus olhos brilhantes e úmidos, não mediu a emoção ao falar que ele, o moço, o menino-homem, era o sonho mais belo que poderia ter sonhado, mas que desejava que tudo aquilo não se tornasse realidade, pois ela conhecia a realidade e sabia que a experiência pela qual os dois estavam passando não se tratava de outra coisa que não o sonho mais lindo que qualquer encanto de fadas pudesse permitir, e falou assim para se referir a algo profundamente mágico. Pediu ela então que isso pudesse continuar sendo tão incrível quanto havia sido até agora, e a resposta do moço mágico a encantou ainda mais.






Ele sabia realmente como tocá-la...

O presente #6

O mistério



Ao completar um ciclo de sua respiração a menina sonhadora percebeu que estava recostada à sombra de uma grande árvore, e espreguiçou-se como quem acorda de um sono profundo e restaurador, sentindo uma alegria incomum para quem já havia passado por tantos encontros e desencontros em seu tortuoso caminho.
Então aquilo tudo tinha sido mesmo um sonho, vaporoso e entretanto bastante consistente...

Ela podia, certa de sua lucidez, lembrar de cada detalhe do que vivera no seu devaneio mais mágico: o universo que aquele ser representava, seus olhos de pérola protegida e seus cristais, sua pele macia como um lençol protetor e aconchegante quando tocada pelo abraço impetuoso da menina, e o cheiro envolvente, calmante e adocicado de sua pele, como cheira a madeira das árvores mais jovens e mais convidativas, além da voz melodiosa que parecia ter sido prevista em cada um dos seus tons e a música, ah... a música ritmada daquele coração!
Aliás, ainda não podia dizer ao certo se era mesmo dele que as batidas vinham ou se a menina conseguira tamanho estado meditativo que pôde ouvir seu próprio coração batendo como se cantasse a vida que por ele passava.

Houve então um suspiro apaixonado.
A menina se recordaria para sempre daquela ilusão como o mais belo sonho de todos que já tivera, que foram muitos por sinal, garantindo-lhe o vocativo de sonhadora. Estava agora satisfeita com o repouso e pronta para enfrentar mais uma etapa de seu caminho inacabável, quando como uma miragem o ser de seu sonho apareceu por detrás do tronco largo da árvore frondosa e perguntou aonde a menina ia.

Desta vez, houve o encanto profundo acompanhando outro suspiro apaixonado, além da incerteza e do mistério...







O que tudo isso quer dizer?

O presente #5

Um devaneio



Como ela não se cansava de admirá-lo!
Parecia tão irreal tudo o que vinha acontecendo que mesmo ela, a moça sonhadora das mais impossíveis coisas, achou-se incapaz de tamanho devaneio. É certo que toda menina sonha para si algo com tal encanto, mas o que se passava era como uma ilusão vinda de algum torpor mágico e maravilhoso, coberto de desejos e intermináveis satisfações.

Já estava decidido que aquilo não era real. O mestiço era feito de uma fantasia perfeita demais para que não passasse de uma comparação apaixonada. A vida nele, por exemplo, brilhava como a luz de um astro maior ainda que o sol, e aquecia, contagiava, energizava tudo ao seu redor. Aliás, muito dele era parecido com o céu.

Certa vez, ao sentir uma leve brisa tocando seu rosto, a menina dos cachos desviou o olhar e percebeu que a pele de lençol do menino-homem havia sido tocada também por um feixe de luz que escapara pelas frestas dos galhos da grande árvore. O que ela viu era incrível, mais parecia com todo o universo contido no que pode captar a lente de uma luneta. Era escuro, vasto, com centenas de pontos luminosos que se moviam, nasciam e se apagavam ininterruptamente. Ela se deu conta por um instante do quanto estava surpresa com aquilo e que poderia até mesmo estar com uma aparência perplexa, e então o moço se apercebeu do que havia acontecido e tentou lhe explicar do modo mais simples possível, pois nem ele mesmo sabia ao certo o motivo daquilo tudo.

Ele sempre soubera que em cada ser existente, mágico ou não, havia um universo diferente. Era como se o corpo fosse apenas um frasquinho contendo todo o mundo, e cada frasco tinha uma forma diferente de modo que o mundo nele contido se adequasse ao seu propósito, muito embora dificilmente esse propósito tivesse sido conhecido.
Neste ponto da conversa o moço pareceu um pouco envergonhado e a menina lhe perguntou o por quê de tal acanhamento quando parecia que ambos estavam contando seus segredos e o que o menino-homem contara nem era merecedor de tanto pudor.
O moço então lhe disse que havia algo a confessar, que surpreendentemente a menina tão observadora de mistérios alheios ainda não tinha percebido...








E o rubor se fez comum...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O presente #4

Iguais






O moço (mestiço de menino e homem) pareceu tê-la percebido ali e ela então fez uma expressão com o rosto, como se o tivesse cumprimentado. Surpresa foi o modo como se deu o resto do contato: ele respondeu ao gesto começando uma conversa de afins, parecendo que os dois se conheciam há muito mais tempo do que se poderia imaginar.
Era tão simples e confortável conversar com o ser mágico e misterioso que a menina não se envergonhava de compartilhar suas aventuras como se as tivesse contando a um amigo desses da vida toda.
Dava pra sentir a confiança fluindo.
Devia ser outra das mágicas do encantador...

Passaram dias inteiros conversando ininterruptamente sobre todas as experiências possíveis, os cheiros e sabores preferidos e por incrível que pareça também comuns, os sons, as cenas... Tudo o que havia de percepções pessoais eles as tinham iguais. Eram como um reflexo um do outro, mas a menina não era tão mágica e nem ele tão delicado assim. Ambos eram mistos de intrepidez e maturidade. Havia algo ali. Outra mágica.

A menina perguntou de onde ele viera e ficou surpresa quando ouviu: de um saco.
Ora, mas um saco?
É, era um saco de presente. Um embrulho deixado por acaso ou destino no meio do caminho de alguém. E o saco estava lá, com ele, e dele o serzinho mágico tirava também magicamente tudo o que tinha significado para a menina: comidas que ela gostava, livros, filmes, músicas, os seus velhos amigos, histórias de família, desenhos e tudo o mais.

Certa vez, de tão feliz por ter tudo o que mais gostava e tudo o que mais queria, ela o abraçou num impulso. Sentiu de novo aquela dimensão diferente, ouvia uma melodia harmoniosa, forte e coerente que não sabia ela mas eram as batidas sincronizadas de seus corações. Havia um calor aconchegante e uma brisa na tal dimensão: era o contato da pele e da respiração. Mágica mais uma vez.






E a menina não parava de se encantar...

O presente #3

Mágica






O tal menino-homem deixava a menina cada vez mais encantada, e cada vez mais curiosa. O som da sua voz era como encanto de sereia que junto às notas saídas do seu instrumento mágico pareciam carregar a engolidora de mundos para junto daquele ser. Sua pele não se pode descrever bem, algumas comparações como pétalas de flores, leite, pão doce e principalmente lençol são as que chegam mais perto do real (se é que aquilo tudo era mesmo real). Lençol era a preferida da menina, para que conste.

Ela o observou de longe por um tempo, teve receio de se aproximar achando que talvez não fosse capaz de se comunicar com um ser tão rico de detalhes. Tentou enxergar tudo o que pudesse daquele mundo mas seus buracos negros não funcionavam muito bem com este por causa de outro dos seus detalhes: as janelas - os olhos eram tão pequenos que pareciam pérolas brilhantes bem escondidas dentro da concha, e além de tudo eles ainda eram protegidos por uma camada de cristal que caía muito bem com o resto das características.

Ele era mágico, ela tinha certeza.

Saía um brilho de todo o seu corpo, como uma aura, que provocava uma reação temporária de transe hipnótico na qual se pensava estar numa dimensão alternativa e surreal, onde se flutuava como nuvem e existiam apenas o talzinho e a menina dos cachos.
Indescritível. Ilógico. Impossível.





Por gostar de tentar o impossível e para continuar fazendo suas próprias instruções e um dia escrever seu próprio manual, ela se aproximou, e ainda pior... Se comunicou!

domingo, 3 de janeiro de 2010

O presente #2

Surpresa(s)






Definitivamente ela não ia tentar. Não mexeria no que não é seu e com isso não atrairia mais problemas, pois todos sabem que cada vez que a menina tentou uma nova história, teve de abandoná-la no final, porque o que ela queria na verdade era que uma dessas não tivesse final.
Entretanto, sem tentar algo novo também não teria mais nada novo para viver, nada com o que se preocupar e nenhum desafio que a fizesse querer ser melhor.
Decidiu por seguir adiante pois, se fosse mesmo seu, o tal presente a encontraria novamente.

Andou novamente sem rumo com seu manual e seus poucos pertences para sobrevivência. Não quis olhar as instruções para a situação pela qual passara, dessa vez ela aprenderia pelas próprias decisões, acertos e certamente erros.

Sabem aquela árvore que ela sempre encontrava quando precisava descansar de suas aventuras? Eis que aparece novamente, mas desta vez quem está aproveitando a sombra e o frescor do descanso é um ser misterioso, meio homem e meio menino, sentado com as pernas cruzadas sob os galhos mais baixos e tocando um instrumento que com certeza era mágico - tinha cordas que brilhavam como ouro e quase se podia ver as notas musicais saindo junto ao seu som.
A menina nunca vira nada igual. Um ser desse tipo não era muito comum no seu caminho, apesar de nada ser comum na vida dessa aventureira.




Curiosa e perspicaz, quis descobrir quem ou o quê era aquele ser mágico...

O presente #1

Um novo livro






Este deveria ser só mais um capítulo na história da Dorothy. Mais um número, mais um baú cheio de esperanças, experiências e como sempre... decepções. Mas ela decidiu que desta vez seria diferente, pois começou diferente desde o momento em que resolveu escrever uma nova história. Esta seria a melhor entre todas que nasceram de suas ideias, e não poderia ser só mais um capítulo: será um novo livro.

E sempre começa daquele jeito, quando a menina que parece encantadora mas não passa de um quebra-cabeças bem complicadinho se encontra de novo sem rumo certo, procurando aonde ir de acordo com o que encontrar pelo caminho.
Todos têm um ideal, um o quê com tudo o que se deseja de bom e ruim na medida certa, e ela achou um exemplar desses com o tudo o que mais queria no mundo bem no meio do seu caminho, feito um presente que deixaram por ali porque sabiam que ela logo passaria.
Mas eis a questão: quando tudo está assim tão perfeito, tão fácil, tão harmonioso... é um péssimo sinal.

Esta história começou do melhor jeito:

Ela topou com o presente, olhou bem, viu os detalhes, admirou-os e achou completamente estranho o fato de ser praticamente a materialização de seus sonhos.
Como pode existir algo assim tão bom?
Não podia ser para ela... impossível que adivinhassem suas vontades e realizassem todas de uma vez só. Sem chances. Melhor deixar ali para que o dono de verdade achasse, isso sim.

Ah, mas que deu uma vontade de sentar ali e escrever tudo o que fosse possível sobre aquele presente, isso deu. Só de vê-lo, mesmo sem saber se ela podia ou não estar ali tocando e reconhecendo, ela se sentia feliz e cheia de esperanças, de expectativas.
Mas nao é isso que estraga a tal relação harmoniosa com as coisas? As tais expectativas que podem rumar para a satisfação ou a decepção já falada neste texto?
Que confusão!!! Bem característico dessa menina, por sinal.

E se ela tentasse, só um pouquinho e devagar para não danificar, ver do que se tratava e se ela podia fazer uso desse presente tão especial?









Vamos ver no que dá!









Inté.