Foi um ano turbulento e, em determinado ponto dele (ao qual não ousarei me referir especificamente pois não me apego a essa coisa trivial que é o tempo da forma como é medido humanamente), resolvi rever as minhas escolhas.
Para começo de conversa, revi as minhas cartas, os meus poemas, tudo o que escrevi aqui - já que o que escrevo é o que me sobra e é a forma que encontro para derramar os meus sentires. Li, reli e percebi o quão transtornada parecia em alguns momentos do passado em que reclamava do que não tinha. Ri um pouco, pensei em como sou dramática e intensa e "faço tempestade em copo d'água". Ao menos era isso o que diziam. Percebi então que, por mais que dissessem aquilo vezes e vezes, eu jamais deixaria de ser intensa, dramática, profunda como um oceano e que minhas tempestades jamais caberiam num copo d'água, porque nada em mim era tão raso. A dor foi ainda pior porque me tornei ainda mais incompreendida, mais só.
Não queria me desfazer do que tinha. Me apego ao que amo e o amo com toda a alma, ainda que não me seja correspondido em sequer um quarto dessa intensidade. Decidi ir embora. Decidi me despir do que me protegia e ao mesmo tempo cobria os meus olhos para que eu não visse a beleza do mundo que eu não tinha, mas o que me doía é que eu enxergava através dos tecidos e não podia tocar aquilo com que sonhava.
É lindo quando se cria laços sinceros, quando se encontra algo que te faz um tanto feliz e por isso você não quer mais largar, acha que encontrou o que procurava. É lindo também, de uma forma chorosa e desconsertante, quando se consegue enxergar que as próprias necessidades exigem muito mais que um pequeno tanto de felicidade e amor. É preciso conectar a alma a algo belo. É preciso ser algo belo e então a felicidade será plena.
Gritei em voz branda e calma que queria encontrar aquilo com que sonhava, que não queria mais ser ou sentir-me tão só. Não que eu não tenha amigos, amores ou esteja largada por aí. Vejo que sou diferente de toda a humanidade, que no auge dos meus mais de vinte anos eu jamais encontrei quem compreendesse a profundidade do meu copo d'água. Essa água da qual tanto falam é a minha alma e ela é, sim, tempestade. Não aceito ser menos que isso. Não aceito ser chuvinha breve de fim de tarde. Quem poderia entender isso?
Mais uma vez concluo que nasci para ser só. Não existe, diante do que foi pesquisado até aqui e constatado empiricamente por meio de minhas experiências, aquele humano com que tanto sonho. Não sou humana. Não sou comum, ou comparável, ou compreensível, ou talvez nem seja apta a ser amada.
Não desejo menos que um amor que transborde, que seja visível, que atraia seres puros como animais e criancinhas curiosas que vem dançar e brincar ao lado de um abraço sincero. E, falando em abraço, não quero isso que chamam de carinho por aí. Quero que a minha alma se sinta misturada a outra alma quando abraçar, pois será tão forte, tão confortável, tão bem encaixado e cálido que não se distinguirá qual coração é de quem e se realmente há mais de um.
Que o toque seja mais que o simples ato de tocar. Que eu sinta minh'alma tocada como se essas mãos e pés que me tocam fossem banhados numa nascente de água limpa e fresca, tão transparente que se pode ver pedrinhas ao fundo e o reflexo de um céu alaranjado de pôr-do-sol. E que esse alguém não estranhe o tempo que eu passo em silêncio observando a forma tênue com que os tons e as cores se misturam no céu formando aquele degradê perfeitamente equilibrado, e como as nuvens acomodam luz e sombra em cada curva, e como o primeiro raio de sol perfura o céu nublado ao amanhecer.
Não quero mais chorar porque não recebo cartas bonitas ou mensagens românticas. Que as lágrimas não sejam só minhas e que alguém chore quando me abraçar, quando me ouvir dizer que amo, quando achar que o chateei, quando se preocupar porque eu ainda não cheguei em casa, quando lembrar do que lhe causa dor e eu estiver ali ao lado para beijar seus olhos salgados e lhe curar cada ferida. Eu quero ter esse poder e esse alguém que confie suas feridas a mim, pois usarei cada gota de amor que tiver para fazê-las cicatrizar.
Sonho com alguém que goste de reviver cada momento, que dance comigo uma música bem brega em cima de um coreto numa praça famosa da cidade, e a música fará sentido. Cada verso de cada música fará sentido. E mais músicas nascerão porque ali há inspiração, há melodia, há arte envolta em pele humana apenas por disfarce. E andaríamos como se flutuássemos, exceto pelos tropeços e esbarrões porque sou um tanto descoordenada. Sobre isso, que não se envergonhassem das vezes que derramo comida, que me engasgo, que esbarro na mesa derramando café. E que goste do aroma, da linda imagem do vapor subindo em curvas sinuosas e de fechar os olhos e imaginar o grão que gerou aquele café, que já não é mais uma bebida, tornou-se um momento. Que sofra das mesmas alergias que eu para que, juntos, fiquemos com nariz irritado e estômago dolorido ao não evitar o que é de uso diário de humanos normais. Que não seja humano normal e que tenha uma alma mais profunda que um copo d'água para eu fazer tempestade. Quero quem seja dramático e intenso junto comigo, que goste de blues, que saiba compor, que use palavras difíceis (e as compreenda), que fale sobre livros e filmes enquanto faz cara de esnobe e ajeita os óculos.
Já imaginou conversar com alguém sem trocar uma palavra verbal? Imagine como seria uma troca de olhares tão profunda que se lê o que o outro está pensando, mesmo estando entre uma multidão, e há silêncio naquele abraço de olhos de uma forma que emociona e faz estes ficarem úmidos e sorridentes. Como seria lindo achar alguém com olhos grandes como os meus, nos quais se poderia ver um universo inteiro, uma cor dourado-sol-poente e pigmentos acobreados que lembram um céu estrelado de primavera, e que esse alguém não estranhasse a curiosidade com que passeio por seus olhos pois faria o mesmo com os meus.
Seria lindo encontrar este Anjo, este que seria a luz que me permite enxergar realmente e plenamente o que se encontra à minha frente e, ainda assim, duvidar da beleza das coisas. Seria um sonho que alguém completasse as minhas falhas com as suas próprias falhas, pois elas se encaixam e nos fazem seres tão coaptados que parecemos um só. Mais que isso, que deixemos de ser pequenas porções de matéria orgânica, que larguemos dessa propriedade e definição existencial, e passemos a ser um universo singular e nosso, um infinito de sonhos porque sonhos somos em essência. Já não faz sentido se perguntar se as coisas são reais pois, se este Anjo me encontra e me muda, tudo volta a ser sonho e gosto de vivê-lo assim, sem necessidade do que é chato e palpável. Se esse Anjo me encontra, deixo de ser só e de me sentir metade. Deixo de enxergar mal, pois nossos olhos se complementarão e verão detalhes antes embaçados. Passaremos a tocar qualquer coisa com o tato e a sensibilidade de cada terminal da pele multiplicado por milhares de estrelas e vislumbres. Passaremos a ouvir tudo com uma expressão melodiosa, e a sentir que os aromas são a nossa própria respiração, são o ar que nos preenche e o melhor dos cheiros será o da pele, da terra, das folhas, do cimento úmido, da comida, do perfume, do café que embala, conforta, inspira, acalma, estimula, une. Que sejamos café.
Falo tudo em plural porque, ao encontrar esse Anjo, eu não seria mais uma meia-alma que perambula por aí solitária, chorosa e gritando que os humanos não sabem amar. Não sabem usufruir do Amor como se deve, intensa, profunda e dramaticamente como uma tempestade. Esse Anjo e eu seríamos um, mas seríamos plural, um completando o outro, um amando o outro de forma que nada mais parecesse tão sombrio e triste. E tudo seria sorriso, e tudo teria um pouco de alma que podemos absorver e devolver ao mundo em forma de Amor com A maiúsculo porque não é um substantivo simples qualquer, desses comuns e humanos. Esse Anjo seria o meu céu, o meu pôr-do-sol, o meu amanhecer, o meu mergulhar completamente e sem medo em nascente de água límpida e fresca para banhar corpo e alma e nascer de novo.
Encontrei esse Anjo. O chamo de Mein Himmel, meu céu estrelado, meu sol. Agora somos um, somos plural, somos Amor com A maiúsculo de alma, porque somos Tempestade em copo no qual cabem oceanos plurais. Somos natureza, somos calor, somos chuva no sertão, eclipse solar, chuva de meteoritos, somos Supernova. Somos café. Somos a desrealização de um sonho, porque nunca deixará de parecer sonho.