quarta-feira, 30 de abril de 2008

Continho #6

E enfim ela achou o livro que trazia uma dedicatória curta e muito direta:
"À moça dona do mundo".
Só podia ser dela. Estava no lugar que era seu e o título tocava-lhe tão profundamente que ela resolveu que seria secreto. Não podia correr o risco de revelar o mundo aos outros, e perder o que estava aprendendo a conquistar.
Cada palavra ali lhe remetia a alguma lembrança ou idéia de situação, e lhe fazia refletir sob diversos ângulos, pensar teores que jamais havia imaginado. Quanto mais lia, mais sentia-se capaz de entender e desentender, conforme fosse necessário. E embora não tenham sido tão rápidas assim as mudanças, suas convicções foram ganhando mais elasticidade, seus conceitos tornaram-se flexíveis, e isso a fez ser mais ampla, mais rica, maior. Exatamente como ele achou que aconteceria. Como ele a imaginou e desejou.
Todo esse processo de uma quase 'libertação' foi composto por confusões e sentimentos dolorosos, antes do prazer da conquista. E sempre que ela passava por isso pensava em quem a havia levado a pensar assim. Ficava imaginando-o em toda a sua pretensão e superioridade, amaldiçoando-o, perdoando-o, agradecendo-o. Apaixonando-se.










Fim.

(ou não)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Continho #5

Já há um bom tempo, desde que ele tinha começado a escrever seu "manual", vinha observando-a mais detalhadamente, todos os dias. Ele ficava ali, quase imperceptível, fingindo ser mais um humano que sobrevivia às próprias regras. Com certeza ela nunca o tinha visto. Se o viu, não soube que era ele o maior interessado no modo como suas sinapses vinham funcionando. Jamais saberia quem era aquele homem, e o que pretendia. Seria por ele coagida, condicionada a "existir", e nunca o descobriria. Ele era intocável. Impenetrável.
Não queria ser seu amigo nem qualquer tipo de proximidade ou afeto. Bastava-lhe poder interferir.
Então, naquele dia comum, enquanto ele continuava invisível e esperando-a, ela não foi.
Foi um fato não previsto que não interferiu nos seus planos, mas aquilo veio como um vazio estranho, algo que há muito não conhecia. Sentiu falta de alguém.
Inconcebível para alguém que buscava sempre a solidão por não acerditar no amor ou formas não-efêmeras de amar, aquelas saudades o confundiram de um certo modo, fizeram-no pensar melhor sobre o que aquela criaturinha estava representando em sua vida.
Deu-se conta de que tinha sido tomado por ela e, independentemente de haver reciprocidade ou não, era dela. O seria sempre, onde quer que estivesse, com quem estivesse.

Continho #4

Ela estava sedenta por novas visões, novas leituras de um mundo que achava ser imaginário. Tudo aquilo, tão envolvente, tão emocionante, não podia ser real! Não cabia naquela vidinha sistemática que ela conhecia.
Ele sabia que ela almejava muito mais do que estava tendo, e que ela sentia que tudo era mais amplo, mais profundo do que se podia ver. Decidiu apostar naquela menina que mal tinha a metade de sua idade, instigá-la a descobrir o invisível. Seria seu legado para o mundo.
Pôs-se, então, a destrinchar segredos de uma vida, frutos de uma sensibilidade adquirida com a experiência e com sua capacidade singular de enxergar as coisas. Falou de conceitos, de como derrubá-los, da melhor forma de interpretá-los. Falou dos enganos, dos julgamentos, enfim, tudo o que há pra ser vivido e percebido (ou não). Queria entrar naquela cabecinha e desatar nós mal feitos, ainda que dando outros nós necessários. Queria, além de tudo, o seu bem.
Cada vez que a via sentada no banco de praça, lendo ou simplesmente estando ali sem algo definido para fazer, imaginava os conflitos que causaria e os possíveis resultados. Mas estava certo de que ela precisava disso.

Continho #3 - Ele

Um artista. Ele tinha uma congênita visão diferente de tudo. Reconhecia cada estupidez dita, e cada particularidade realmente importante em alguém. Era um observador nato e nunca ficava desapercebido. Atento, controlador, foi surpreendentemente inebriado por uma força sutil que lhe veio como um olhar instigante, e nele ficou. Por um bom tempo.
Foi analisando e percebendo-se naqueles gestos, naquelas expressões que pareciam mostrar-lhe o que ele foi, pelos traços em comum, mas via também as diferenças.
Ele a observava cada vez mais, tentando interpretar o que ela queria dizer com aqueles movimentos delicados de cabeça e sobrancelhas, com umas caretinhas que fazia aqui e ali.
Teve então uma ideia, algo súbito que lhe veio como uma alternativa de aproximação, talvez não tanto, mas de intervenção naquele desperdício de energia que estava vendo. Sabia que ela tinha potencial e que não estava sendo aproveitado. Queria dizer-lhe como ver o mundo da melhor forma, e achou que esta seria uma boa opção: um livro.
Afinal, não era ler o maior prazer daquela menina? E não era ele, não por coincidência, um escritor?

sábado, 19 de abril de 2008

Continho #2 - O atraso

Desta vez ela atrasou-se em suas tarefas e acabou não indo ao lugar que já era seu por direito, por ter sido conquistado. Muito foi perdido naquele dia. Algumas páginas de uma de suas vidas não foram lidas, nem vividas, sentimentos não foram descobertos, amores não foram desejados. Este foi um dos dias mais tristes daqueles tempos, e, o que ela não sabia, é que não foi a única a se entristecer.
Ela acreditava viver só num mundo que inexistia, que pouco podia compreender, mas, mesmo estando em seu próprio mundo a maior parte do tempo, os habitantes de sua realidade desacreditada tinham-na como fonte de luz naqueles tempos de decepções e angústias.
A tinham como uma flor única, uma esperança que sobrevivia à toda aquela mecanicidade. Havia sempre quem se surpreendesse com seus olhares imaginativos, suas expressões doces da vida, como crendo que viver poderia ser algo tão emocionante quanto lia nos livros. Os que passavam por ali todos os dias, ainda que ela não exergasse ou não desse valor, a viam sempre e a observavam, e admiravam, pensando que seria mesmo possível viver encantando-se todos os dias.
Naquele dia parecia que todos haviam saído de casa sem seus corações. Pairava uma aura cinzenta, como que estivesse faltando vida em tudo. Sabiam que algo não estava em seu lugar, mas não sabiam o que, ou onde. Aliás, este não era o sentimento de todos. Uma pessoa em especial sentia a falta daquela menina, naquele lugar. Alguém que a observara por muito tempo, e que ainda tinha dúvidas sobre o que a fazia tão especial.

Continho #1 - Ela

Estava ela sentada num banquinho, desses de praça, com um livro à mão e todas as suas coisas jogadas ao seu lado, como quem se livrou com pressa do peso que tinha nas costas. Uma expressão concentrada no rosto, que dava ligeiramente a perceber que fantasiava tudo o que estava ali escrito, que imaginava-o como real. Não importava quantas pessoas passavam ou o barulho que faziam, o seu mundo literário era tão cativante que fazia com que tudo o que acontecia ao seu redor fosse mera ilustração, parte do cenário apenas, sem foco, sem falas.
Quem a via certamente imaginava uma menina cheia de gestos delicados e com uma sede de aprender, uma curiosidade apaixonante.
Sentar-se ali era um hábito, algo que fazia todos os dias no fim da tarde. Depois de fazer tudo o que sua vida "real" lhe exigia, perceber novas coisas, fossem elas reais ou de seu mundo de fantasia, era sempre um prazer, e um refúgio.
Ela adorava aqueles romances em que a donzela vivia amores impossíveis, cheios de aventuras enquanto tentava torná-los possíveis, e que, no fim, a graça acabava, quando o casal terminava feliz para sempre. Imaginava-se sempre sendo uma das heroínas inteligentíssimas disputadas por homens de todos os tipos, daquelas bonitonas e dominadoras.
Depois das horinhas de satisfação diárias, voltava à sua meia-vida. Perdia as cores, os gestos, a paixão. Era como se desligassem sua luzinha, se lhe tirassem a vida, a espontaneidade, e a deixassem mecânica, fria, invisível.
Mas nem tudo o que sentia era volátil. Ficavam guardadinhas ali coisas que ninguém poderia imaginar, mas, no tempo certo, no momento oportuno, estariam tão à mostra que nada poderia lhes escapar.
E assim ela ia tomando o mundo para si, aos pouquinhos...