quarta-feira, 23 de abril de 2008

Continho #3 - Ele

Um artista. Ele tinha uma congênita visão diferente de tudo. Reconhecia cada estupidez dita, e cada particularidade realmente importante em alguém. Era um observador nato e nunca ficava desapercebido. Atento, controlador, foi surpreendentemente inebriado por uma força sutil que lhe veio como um olhar instigante, e nele ficou. Por um bom tempo.
Foi analisando e percebendo-se naqueles gestos, naquelas expressões que pareciam mostrar-lhe o que ele foi, pelos traços em comum, mas via também as diferenças.
Ele a observava cada vez mais, tentando interpretar o que ela queria dizer com aqueles movimentos delicados de cabeça e sobrancelhas, com umas caretinhas que fazia aqui e ali.
Teve então uma ideia, algo súbito que lhe veio como uma alternativa de aproximação, talvez não tanto, mas de intervenção naquele desperdício de energia que estava vendo. Sabia que ela tinha potencial e que não estava sendo aproveitado. Queria dizer-lhe como ver o mundo da melhor forma, e achou que esta seria uma boa opção: um livro.
Afinal, não era ler o maior prazer daquela menina? E não era ele, não por coincidência, um escritor?

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