Ela
De mulher só tinha o tamanho dos pés.
A idade também não era pouca, mas todo o resto era de menina.
Um jeitinho quase saltitante de andar, uma fala mansa e cheia de "pretensões despretensiosas" que segundo seu mentor intelectual e autor do misterioso Manual eram as piores, não por serem ruins, mas por serem poderosas e difíceis de se controlar.
Seus cabelos eram milhares e milhares de molinhas pretas, tantas quantas estrelas se pode contar no céu, e andavam por aí como que fossem pura energia em volta daquela cabecinha, desprendidos da matéria e incontíveis, emoldurando um rosto meigo mas de traços fortes, como sobrancelhas imprecisas e um queixo atrevido, uma boca que mais parecia um coração com todos os sentimentos ali completamente expostos, um nariz que mediava a disputa entre a boca e os olhos, e estes, os olhos, os mais perigosos, eram dois buracos negros nem sempre negros, que variavam de um castanho avermelhado a qualquer outra cor quente possível de acordo com o que engoliam, pois nada naquela menina era frio, nem sequer uma cor.
Falemos de engolir.
Era seu verbo preferido e mais praticado. Além de comer delícias carboidráticas, ela era uma gulosa em termos menos tangíveis. Tomava com os olhos tudo o que lhe fosse possível, apalpava, decorava, usava todos os sentidos e, por fim, engolia com seus buracos negros, nunca mais devolvendo.
Essa era a arma que ela tinha para seguir em sua busca por uma tal cidade onde tudo o que ela quisesse seria possível, e pode-se imaginar que só essa propaganda já deve ter encantado essa menina a ponto de fazê-la pular de onde estivesse e correr para achar esse lugar. Assim foi feito.
Sua bagagem era, além de suas poderosíssimas cavidades cósmicas oculares, seu par de óculos frequentemente necessários, lanchinhos não perecíveis, lápis e um Manual que achou um certo dia num certo banco de praça e para o qual precisaria dos óculos.
Ouviu falar de uma estrada de tijolos amarelos, (talvez tenha lido mas com tanta coisa gulosamente engolida ela já nem sabia mais) e era este o seu primeiro objetivo de uma série deles:
encontrar o tal caminho.
Uma bela aventura para uma moça que tinha tanta fome delas. Fome de muitas coisas, aliás.
Leitura útil: Buraco Negro
Inté.
terça-feira, 10 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Vocabulofagia
Se eu fosse uma palavra, não sei que função sintática teria.
Talvez fosse um verbo cheio de transitividades,
usaria os objetos diretos e indiretos como complementos
momentâneos e descartáveis.
Mas um verbo intransitivo também seria interessante,
cheio de psicodramas e subjetividades,
essas coisas intangíveis que a gente adora usar pra se sentir humano.
Não sei se seria melhor ser inconstitucionalissimamente grande,
ou um monossílabo só, tônico, mas monossílabo.
Entretanto, acho que ser curtinho e entonado é ser objetivo,
então já descartaria todo o sonho de intransitividade,
de auto-suficiência.
Quem sabe um advérbio, um adjunto adnominal
ou qualquer outra possibilidade gramatical
que não pudesse ferir uma intimidade com outras palavras,
pois importante é ter acesso aos palavrões experientes que já viram muita coisa dessa literatura que há entre o céu e... a terra?
Por enquanto me contento em ser um substantivozinho,
ou um pronome pessoal do caso reto,
variando de pessoa,
pois às vezes sou tu, sou ele ou ela e, raramente, eu.
Me distraio sendo uma palavrinha útil mas não muito chamativa,
para poder transitar por aí tendo morfologia leve, rima fácil.
Não sou uma palavra comum, dessas que se costuma usar cinco vezes numa mesma frase, e gosto de ser assim, pouco ouvida, pouco grafada, um tanto duvidosa em termos semânticos e bem-quista pelos mais cultos e letristas.
Como toda palavra, meu desejo é ser a base de uma canção bem feita e ter música intrínseca à pronúncia.
Desejo também ser parte de gramática e língua vivas,
para que uma outra vontade seja possível:
Ter muitos, muitos significados.
Inté.
Talvez fosse um verbo cheio de transitividades,
usaria os objetos diretos e indiretos como complementos
momentâneos e descartáveis.
Mas um verbo intransitivo também seria interessante,
cheio de psicodramas e subjetividades,
essas coisas intangíveis que a gente adora usar pra se sentir humano.
Não sei se seria melhor ser inconstitucionalissimamente grande,
ou um monossílabo só, tônico, mas monossílabo.
Entretanto, acho que ser curtinho e entonado é ser objetivo,
então já descartaria todo o sonho de intransitividade,
de auto-suficiência.
Quem sabe um advérbio, um adjunto adnominal
ou qualquer outra possibilidade gramatical
que não pudesse ferir uma intimidade com outras palavras,
pois importante é ter acesso aos palavrões experientes que já viram muita coisa dessa literatura que há entre o céu e... a terra?
Por enquanto me contento em ser um substantivozinho,
ou um pronome pessoal do caso reto,
variando de pessoa,
pois às vezes sou tu, sou ele ou ela e, raramente, eu.
Me distraio sendo uma palavrinha útil mas não muito chamativa,
para poder transitar por aí tendo morfologia leve, rima fácil.
Não sou uma palavra comum, dessas que se costuma usar cinco vezes numa mesma frase, e gosto de ser assim, pouco ouvida, pouco grafada, um tanto duvidosa em termos semânticos e bem-quista pelos mais cultos e letristas.
Como toda palavra, meu desejo é ser a base de uma canção bem feita e ter música intrínseca à pronúncia.
Desejo também ser parte de gramática e língua vivas,
para que uma outra vontade seja possível:
Ter muitos, muitos significados.
Inté.
terça-feira, 3 de junho de 2008
O Querer
É que querer algo é tão complicado quanto não querê-lo.
Pois não é querer uma decisão que deixa de lado as outras possibilidades, os outros quereres?
E aí vem tudo o que poderíamos ter escolhido como que vingando-se através de uma insatisfação, uma dorzinha na consciência e uma ansiedade por outra chance de escolher, aliás, muitas chances, para que se possa experimetar tudo o que há para ser provado, e ainda que não seja possível satisfazer-se com algo, mas tudo terá sido tentado.
Não querer é também difícil por ter um vazio inerente, uma não-vida que deixa-nos à parte de quaisquer aspectos humanos.
Somos feitos de quereres e cada desejo nosso nos delineia de uma forma diferente e evolutiva (involutiva, às vezes). Nossos intentos são frutos de nossas percepções, e seus processos bem como seus resultados podem levar-nos a validar ou substituir nossos conceitos.
Querer e não querer são complementares e necessários. Porque se só quiséssemos, nada faríamos, e se só não quiséssemos, nada seríamos.
Inté.
(É uma falta de censura que me faz postar de tudo aqui, independente da qualidade ou falta dela)
Pois não é querer uma decisão que deixa de lado as outras possibilidades, os outros quereres?
E aí vem tudo o que poderíamos ter escolhido como que vingando-se através de uma insatisfação, uma dorzinha na consciência e uma ansiedade por outra chance de escolher, aliás, muitas chances, para que se possa experimetar tudo o que há para ser provado, e ainda que não seja possível satisfazer-se com algo, mas tudo terá sido tentado.
Não querer é também difícil por ter um vazio inerente, uma não-vida que deixa-nos à parte de quaisquer aspectos humanos.
Somos feitos de quereres e cada desejo nosso nos delineia de uma forma diferente e evolutiva (involutiva, às vezes). Nossos intentos são frutos de nossas percepções, e seus processos bem como seus resultados podem levar-nos a validar ou substituir nossos conceitos.
Querer e não querer são complementares e necessários. Porque se só quiséssemos, nada faríamos, e se só não quiséssemos, nada seríamos.
Inté.
(É uma falta de censura que me faz postar de tudo aqui, independente da qualidade ou falta dela)
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