domingo, 30 de dezembro de 2012

O espelho - Parte I

Era essa questão de não conseguir distinguir entre o racionalismo de sua essência e os rompantes de intensa necessidade de autoconhecimento que o faziam não saber quem realmente era. E isso é que o fazia ser quem ele era.

Cada uma das excentricidades de um perfeccionista fazia com que se sentisse mais seguro sobre suas escolhas e perspectivas. Estava ali trabalhando, certo sobre os resultados que cada um dos cálculos teria e sobre o que significaria para o empregador. Vivia nesta rotina de calcular, verificar, estudar os gráficos, predizer coisas. 

Predizer coisas. Esta parte dele o fazia muito mais que um humano comum. Ele podia sentir as respostas, prever as ações, como se conhecesse de dentro para fora o que ou quem estava diante dele. Era como um arrepio quando o fazia pois o mistério sempre foi algo excitante e, para ele, soava como um absurdo ter essas características disputando entre si dentro de sua mente.

Era como ter duas almas, ser duas almas ao mesmo tempo... Algo estava sempre ali desafiando a coerência e lógica às quais tanto se apegava. Ele tinha essa outra alma, essa parte intensa. Tanto que cada sensação pesava e doía como se estivesse preenchido inteiramente por ela. Ele era a própria emoção que sentia. O lógico o fez ficar confuso, e por isso ele se sentia vivo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Na bolhinha de amor

Não estou desistindo. Não abro mão de ser feliz, essa é a diferença. Eu quero é me sentir viva, sentir cada emoção correndo por cada um dos meus vasinhos, chorar até ficar de cara inchada, sorrir até ter cãibra nos músculos do meu rosto. Quero ouvir palavras difíceis nas declarações de amor: incomensurável, atemporal, indescritível...

É tão estranho sentir e não sentir. Sentir e não ver o que está acontecendo. Sentir e não ter provas de que alguém mais também o sente.

Será que ninguém mais pensa como eu? É assim tão brega e antiquado querer que existam românticos que escolhem viver o amor como prioridade? Eu não largo minha fé. Não desisto da minha ideia de que vale a pena.

Existe, sim, um mundo mais colorido dentro da bolhinha de amor que tanto falam por aí. Quem não fica mais feliz quando recebe aquela mensagem, um bilhetinho simples dizendo que tudo fica melhor quando você está por perto? Quem não explode em estrelinhas e confetes quando alguém diz que é mais importante estar com você do que fazer qualquer outra coisa, estar em qualquer outra festa, reunião ou sei lá?

Há quem ache que um eu te amo cura qualquer ferida. Eu digo: não cura as minhas.
Não quando é tão fácil dizer algo sem precisar provar, demonstrar, sentir até o mais profundo dos significados o que se está dizendo. Eu escolho sentir e mostrar a todo mundo o que estou sentindo. Isso me faz mais feliz, mais leve, mais real. Isso me faz usar todos os sentidos para viver o que estou sentindo.

Quero ver minhas emoções nas fotos que alguém se orgulha em mostrar, quero ouvir as palavras que não pude compor nas canções que esse alguém insiste em me dedicar... É isso que eu quero. Um amor brega, antiquado, que seja, mas que me faça achar que tudo isso é real, e que não é também. Quero me sentir em um filme, quero ser a musa da minha música favorita, quero ter as fotos mais melosas espalhadas por aí... Quero faixas com meu nome, camisetas com minha foto e todos os exageros possíveis e impossíveis de se pensar.

Não, não quero um escravo, um devoto. Só desejo achar alguém que faça o que eu faria, que me ame com todo o orgulho com que eu me permito amar. Alguém que me conquiste de todas as formas e que queira continuar me conquistando, porque é isso que acho que é o amor.

domingo, 7 de outubro de 2012

Conversa de almas

O Poeta diz:
Quisera eu ter a honra de te abraçar agora ou quem sabe atravessar o portal para o mundo da cabelos de mola, estar em você de alguma forma...
A Menina diz:
E porque deseja tal capacidade??
O Poeta diz:
Pra ter meios do seu coração lembrar de mim, mesmo quando você for bem velhinha e a memória estiver ruim...
A Menina diz:
Ah, mas com isso o moço não precisa se preocupar. Quem passa pelo caminho da menina deixa uma digital que não se apaga.
O Poeta diz:
Então o menino-poeta agradece a sua existência, e abre um sorriso de ponta a ponta do globo terrestre...
E sussurra pro infinito segredos da alma, que um dia talvez escutará...
Ele não morrerá.






Porque existem almas como a minha.

Enciclopédia

Um dos maiores desafios a quem escreve é pesar e resumir em um simples texto todo o turbilhão de emoções que se está sentindo. Ainda assim, quando se escreve é feito um convite para que quem lê viaje pelos nossos momentos, pelas sensações as quais estamos tentando descrever.


Ninguém é obrigado a amar do mesmo jeito. 


Sei disso. Sei que passamos por experiências incomparáveis, temos personalidades distintas, gostos estranhos e complementares. Sei, ainda, que nos aproximamos muito mais por achar que o outro seria capaz de suprir as lacunas que temos, de viver o que não pudemos e nos realizar quando dessa forma de um completar o outro, feito um quebra-cabeças.

Por vezes isso até funciona. Eu ganho os muitos amigos que você tem, sua extroversão, você ganha a minha concentração e determinação. A minha profundidade.

Mas, imagina só: se eu sou assim tão profunda, severa e sensível, qual será o volume de emoções, sensações e expectativas que carrego no poço que é a minha alma? E se fôssemos, então, compartilhar tudo que somos e temos, como você comportaria metade do meu ser se não cabe na sua leveza e facilidade? Como poderia eu caber nessa sua vida que é tão simples e feliz como uma gota de orvalho que escorre saltitante num campo florido?

Não é que eu prefira sofrer por quase tudo. Eu prefiro mesmo é viver tudo com toda a intensidade emocional possível, com toda a minha essência. Não é fazer coisas impensadas, ser vida louca nem nada... É simplesmente viver e sentir de verdade, com vontade, com doação, o que me proponho a viver.

Às vezes sinto que não caibo na sua vida. O espaço que você tem pra mim é de toda a qualidade, com tudo o que eu sempre sonhei, mas não cabe minha bagagem. Não cabe o vestuário da alma que carrego comigo.

Você não tem o meu jeito de amar e querer gritar e pular por aí, mostrar a todo mundo, fotografar, pintar, desenhar, registrar de todas as formas... Seu amor é discreto, contido, disfarçado. É versão de bolso.

O meu é enciclopédia.