Já há um bom tempo, desde que ele tinha começado a escrever seu "manual", vinha observando-a mais detalhadamente, todos os dias. Ele ficava ali, quase imperceptível, fingindo ser mais um humano que sobrevivia às próprias regras. Com certeza ela nunca o tinha visto. Se o viu, não soube que era ele o maior interessado no modo como suas sinapses vinham funcionando. Jamais saberia quem era aquele homem, e o que pretendia. Seria por ele coagida, condicionada a "existir", e nunca o descobriria. Ele era intocável. Impenetrável.
Não queria ser seu amigo nem qualquer tipo de proximidade ou afeto. Bastava-lhe poder interferir.
Então, naquele dia comum, enquanto ele continuava invisível e esperando-a, ela não foi.
Foi um fato não previsto que não interferiu nos seus planos, mas aquilo veio como um vazio estranho, algo que há muito não conhecia. Sentiu falta de alguém.
Inconcebível para alguém que buscava sempre a solidão por não acerditar no amor ou formas não-efêmeras de amar, aquelas saudades o confundiram de um certo modo, fizeram-no pensar melhor sobre o que aquela criaturinha estava representando em sua vida.
Deu-se conta de que tinha sido tomado por ela e, independentemente de haver reciprocidade ou não, era dela. O seria sempre, onde quer que estivesse, com quem estivesse.
Nenhum comentário:
Postar um comentário