segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O presente #5

Um devaneio



Como ela não se cansava de admirá-lo!
Parecia tão irreal tudo o que vinha acontecendo que mesmo ela, a moça sonhadora das mais impossíveis coisas, achou-se incapaz de tamanho devaneio. É certo que toda menina sonha para si algo com tal encanto, mas o que se passava era como uma ilusão vinda de algum torpor mágico e maravilhoso, coberto de desejos e intermináveis satisfações.

Já estava decidido que aquilo não era real. O mestiço era feito de uma fantasia perfeita demais para que não passasse de uma comparação apaixonada. A vida nele, por exemplo, brilhava como a luz de um astro maior ainda que o sol, e aquecia, contagiava, energizava tudo ao seu redor. Aliás, muito dele era parecido com o céu.

Certa vez, ao sentir uma leve brisa tocando seu rosto, a menina dos cachos desviou o olhar e percebeu que a pele de lençol do menino-homem havia sido tocada também por um feixe de luz que escapara pelas frestas dos galhos da grande árvore. O que ela viu era incrível, mais parecia com todo o universo contido no que pode captar a lente de uma luneta. Era escuro, vasto, com centenas de pontos luminosos que se moviam, nasciam e se apagavam ininterruptamente. Ela se deu conta por um instante do quanto estava surpresa com aquilo e que poderia até mesmo estar com uma aparência perplexa, e então o moço se apercebeu do que havia acontecido e tentou lhe explicar do modo mais simples possível, pois nem ele mesmo sabia ao certo o motivo daquilo tudo.

Ele sempre soubera que em cada ser existente, mágico ou não, havia um universo diferente. Era como se o corpo fosse apenas um frasquinho contendo todo o mundo, e cada frasco tinha uma forma diferente de modo que o mundo nele contido se adequasse ao seu propósito, muito embora dificilmente esse propósito tivesse sido conhecido.
Neste ponto da conversa o moço pareceu um pouco envergonhado e a menina lhe perguntou o por quê de tal acanhamento quando parecia que ambos estavam contando seus segredos e o que o menino-homem contara nem era merecedor de tanto pudor.
O moço então lhe disse que havia algo a confessar, que surpreendentemente a menina tão observadora de mistérios alheios ainda não tinha percebido...








E o rubor se fez comum...

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