sexta-feira, 6 de março de 2009

Análise de uma frase (I)


"Eu sou um coração batendo no mundo" LISPECTOR, C.


Começo com esta citação porque vejo nela muitos significados. Não só o pensamento romântico de quem enxerga alguém que está sempre apaixonado ou não vive sem um amor, mas o sentido holístico de cada palavra.

Primeiro, se observarmos o fato de haver um pronome em primeira pessoa poderemos deduzir uma individualidade relacionada com a coletividade da palavra Mundo. É o ato de ver-se como parte de um mundo no qual se quer estar, ou um desejo de estar num mundo que não lhe é acessível. Também podemos tomar o termo Mundo como o Eu em si, Eu sou o mundo, Eu sou um mundo, Eu sou algo dentro de meu próprio mundo, ou Eu sou uma alma dentro de um mundo que é o meu corpo.

Agora, se pensarmos nas conotações da palavra Coração, teremos outras inúmeras possibilidades: um órgão ou apenas um músculo, uma pequena parte de um todo, parte esta que comanda todo o resto mas sem este também não pode existir ou sobreviver; um símbolo de sentimentos bons e ruins, de percepções e seus impactos; um baú de laços afetivos; um poço de sensibilidade muitas vezes não compreendida... Algo que vive, pulsa, emana sons e calor específicos que variam de acordo com o tudo que o envolve, como o modo com que o mundo gira...

Eu sou, então, tudo isso?
Eu sou um pequeno fator que faz um mundo inteiro viver?
Serei eu algo que poderia abalar todo um sistema caso parasse de bater, de viver?

Pensar isso dá uma certa satisfação por um lado, já que é se considerar importante, eficaz. Mas, por outro ângulo, ver-se tão responsável, tão influente, é de certa forma desconsertante...

E se pensarmos só na conotação romântica da frase?
É o mais óbvio, fácil, e também significativo.

Ser um coração batendo no mundo é ter necessidade e capacidade de amar acima de tudo.

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