Uma breve pausa
E o que se via de onde ela estava era um belo pôr-do-sol e o horizonte alaranjado de fim de tarde. Aquele cheiro de sol partindo a fazia lembrar-se de muitas coisas que teve e desejar outras com que sonhava frequentemente.
Sentou-se sob uma árvore não-sei-de-que, encolhidinha como ainda fosse um feto protegido do mundo no útero materno, e agarrada aos joelhos flexionados deu um suspiro profundo como há muito não dava, desses que fazem parecer que se expeliu todo o cansaço e as preocupações numa baforada só, e tudo por dentro estaria limpo.
Uma leve brisa bagunçava os cachinhos da menina que atrapalhavam um pouco quando voavam pela boca e pelos olhos, mas até mesmo seus movimentos para pôr os cabelos no lugar pareciam ensaiados. Alguns raios amarelos pousavam no rosto dela, e era uma imagem tão delicada, seus olhos ficavam meio translúcidos e sua pele quase que tinha luz própria. O jeito com que ela olhava ao redor era como se medisse coisas que já eram suas. Tinha na expressão muito orgulho do que via, mas parecia faltar algo. Sempre parecia.
Sempre fora difícil entender o que se passava com aquela alma grande demais para o corpo que tinha. Ora de uma felicidade que poderia mover o mundo sozinha, ora de uma aparente melancolia ou insatisfação, as sensações eram fugazes e intensas e ela tinha muita sede de sentir. Nada se comparava ao arrepio de tocar o mundo de leve com a pontinha dos dedos, ou aspirar o cheirinho agradável do amor, ou sentir o sabor de amizades e palavras de carinho...
Como compreender alguém tão sutil e tão profunda? Por que para ela as coisas que satisfaziam todos os outros seres humanos não faziam assim tanto sentido?
Levantou-se, espreguiçou-se até ter certeza de que tinha dois centímetros a mais de tanto que se esticara, pegou suas coisas planejadamente jogadas ali ao lado da árvore e seguiu, pensando o que estaria buscando nessa parte do seu caminho. Isto embora nunca planejasse suas buscas e tivesse sido surpreendida todas as vezes em que encontrou algo bom. E então, com passos firmes, foi-se ela fazer o mundo girar novamente.
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