quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Florida

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Não há coisa mais repetida que falar de flores.
Todo mundo sabe da beleza, delicadeza, perfume com que elas preenchem qualquer lugar onde as joguemos. Talvez até um lixeiro repleto de coisas pútridas e fedorentas fique um tanto charmoso se jogarmos flores nele.

Agora outra coisa comum é fazer metáforas com flores. Sempre associadas a mulheres ou sentimentos. Sempre.

Por que não se fala de flores e filhos? Será que ninguém compara a dor de parir um filho como um desembainhar de espinhos por um talo até que se chega às pétalas, como se parisse uma flor? Não gosto que filhos saiam de flores, como é de praxe.

Flores são sempre ligadas a presentes belos e prazerosos, a coisas surpreendentes que nos fazem sentir especiais, amados, e amar infinitamente mais, como se cada flor multiplicasse a nossa quantidade de sentimento por ele mesmo, resultando um amor (caso seja este o sentimento em questão) adimensional, maior que qualquer universo imaginado.

Mas, como não compará-las à partida de alguém?
Uma flor pode muito bem nos lembrar que algo de bom foi arrancado de sua raiz, foi separado do que o nutre, e sua beleza e tudo o que lhe é inerente acabará sem que a proximidade do indispensável possa manter tudo isso. Contudo, há sempre milagres que fazem flores durarem bastante sem perder sua magnitude, mesmo que elas fiquem ressecadas marcando páginas de livros, mesmo depois de muito tempo, elas são bonitas pela vida que tiveram. Mais que isso, são muito mais belas pela vida que representam, pela beleza da lembrança, pelo perfume de saudade que vem sempre acompanhado do tal amor ao qual um dia foram sinônimos.

Isso. Saudade.
É exatamente isso que elas, as flores, querem falar.
São, constantemente, uma saudade que existe ou que já se está certo de que existirá. Elas são presente de chegada ou de partida, pois mostram que tudo o que arrancado persiste ligado de alguma forma ao lugar de onde nasceu. Um amor, por exemplo, embora deixe de ser viçoso e vibrante, permanece belo e sempre, eternamente, preso ao coração que o pariu, como um filho. Primeiro com a dor dos espinhos, depois a emoção e a beleza, imunes ao tempo.

Enfim, tudo que é dor costuma estar ligado à partida. E se fizermos uns joguinhos de palavras, tudo que é dor, a flor que é um tudo, tudo que é flor, é também ida.

Tuda na vida, inclusive ela mesma, remete a uma flor.
Flor=Vida
Flor+Partida
Florida





Inté.

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