O que representa?
A minha intenção inicial é discutir a relação do verbo e do ato de escrever com as outras funções involuntárias e vegetativas da vida, mas como vocês já sabem nem sempre a minha inspiração perdura até o fim do texto. Então vamos ver no que dá.
Já que falei em inspiração, que tal cogitar a falsidade de uma afirmação constante entre artistas: na arte é muito menos inspiração e muito mais transpiração. Digamos que eu discorde desse pensamento.
Se pensarmos que apenas a transpiração pode garantir o sucesso e a qualidade de qualquer obra artística, onde fica o crédito do dom, da diferente afinidade e, diríamos, vocação para fazer algo mais bem feito do que as outras pessoas? Pois, se um leigo qualquer pinta, escreve ou atua como um artista veterano, creditando-o apenas ao trabalho com que exercitou a arte, de que valerá o afinco com que o tal artista lapidou o que ele já, naturalmente, sabia fazer?
Aposto na inspiração.
Começando por mim que diversas vezes tentei escrever algo e não consegui por falta daquela inquietação característica de todo artista. Não que eu me considere artista, claro, mas afirmo que as frustações e as inquietações por elas causadas são precursoras da dita inspiração, e sem ela não há litros de suor que dêem qualidade a uma obra.
Agora que já perceberam que estou tomada pela inquietação há pouco referida, vamos ao objetivo deste texto: Escrever, o que representa?
Se me acompanham em minhas leituras e releituras do mundo, de como as coisas acontecem e como as pessoas reagem a estas coisas que acontecem, devem imaginar que para mim escrever é quase sinônimo de pensar. É incrível como fica mais límpido o raciocínio enquanto se escreve, e é bem mais fácil organizar as múltiplas idéias que se faz dos acontecimentos mais recentes e ainda de uma forma abrangente e resgatando uma memória de experimetações! Por isso eu tento escrever, e escrevo sem medo de estar sendo ridícula, pois o bem que me faz e que pode fazer a quem lê, mesmo que seja só pela experiência de saber outras opiniões, vale muito mais do que sair por aí apenas "vivendo" e descontando com atitudes desreguladas a frustração de não conseguir pensar direito. Como eu já disse, frustração vira inspiração, e com uma pitadinha de gramática vira arte e conhecimento!
E sobre sentir, escrever exerce alguma relação?
Sem dúvida! Está intrínseco. Não se pode sequer cogitar começar uma frase sem sentir o que ela representa. Sempre há um motivo, uma intenção. Sempre se quer suprir alguma falta quando se escreve, porque as palavras têm um peso e sobretudo uma densidade capazes de preencher vazios intermináveis. O texto, em si, já ocupa em parte o seu tempo, exercita a sua compreensão, resgata imagens e cria outras, religa ou cria ligações entre idéias, ou seja: projeta sentimentos.
Escrever, neste caso, é nada mais que expelir pelos dedos cada sensação obtida e torná-la imortal, pois quando o leitor passa com interesse os olhos pelas palavras ele estabelece uma relação com o autor como se um visse todo o interior do outro, e partilham da mesma sensação, até mesmo da imagem criada com a organização ideal do que foi lido.
Escrever é respirar. É sentir cada letra saindo de si como um suspiro, por vezes de alívio ou angústia, e quem escreve sabe que isto propicia uma produção de serotonina com inegável bem estar consequente. Quem escreve vive mal quando não o faz, ou quando perde a frequência com que o fazia e ao retomar o ritmo é como se ressuscitasse de um mundo obscuro onde é muito difícil respirar. Por isso escrever é respirar.
Por fim, fazendo analogia às funções vitais como eu havia intentado, escrever é pensar, de forma a digerir melhor o que se vive. É sentir, com todos os órgãos que se possa usar, e sobretudo respirar, configurando um conjunto essencial a um outro verbo: viver.
Viver!
Isso sim é escrever.
Inté.
7 Sementes:
Eis-me aqui e mais uma vez surpreendido com os seus textos. Em particular esse que acabou de "sair do forno" que achei muito bem elaborado, as idéias bem concatenadas, me fazendo desejar ler até a última linha. Muito bom mesmo!!
Sobre:
"... que tal cogitar a falsidade de uma afirmação constante entre artistas: na arte é muito menos inspiração e muito mais transpiração. Digamos que eu discorde desse pensamento."
Acho que quando eles falam isso é porque existe pessoas com muito pouco talento, mas que o esforço para fazer, realizar é tão grande que o que fazem torna-se tão ou mais perfeito do que aqueles que tem um dom.
Neto, mas entre os que fazer com tamanho esforço que pensam chegar à perfeição e os que sentem cada segundo e cada milímetro do que fazem como parte de sua própria existência no momento em que o fazem, qual você considera a verdadeira perfeição?
Esforço é valioso, é digno, mas não supre o tal "dom", apesar de eu também discordar desse termo! kkk
Quem faz algo com sentimento, com doação, mesmo que faça pouco, fará muito melhor do que alguém que sue pra fazer algo grande e bem feito, mas sem sentido, sem alma.
Isso, alma é tudo.
E se ousar pensar no escrever como um movimento de internalização e não de externalização?
Marilena Chauí fala algo muito interessante sobre dons. E Foucault sobre discursos. E Bahktin sobre o valor social do discurso. Então... então... como há indícios de um sentimento de elaboração da "angústia", o discurso é ferramenta q internaliza apesar de parecer apenas a forma topográfica privilegiada para externalizar algo que pensamos nosso. E não é.
OU NÃO! rs
Beijos, moça amiga Pri.
Forma tão gostosa de se dizer o que é escrever...
Eu concordo quase completamente.. ;D
Eu viajei completamente e totalmente nesse texto!
Thanks pela viagem pelo mundo das palavras, dos que escrevem e do escrever.
Beijos :*
E depois de muito tempo...
Ótimo texto.
Beijos vizinha.
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