A revelação
O menino-homem parecia ainda mais encantador, apesar do susto que a menina tomara por se deparar com a possibilidade de aquilo tudo ser real. Era impressionante como ao mesmo ele era belo e forte, vistoso e protetor como um grande animal da selva, senhor de seu bando, e era também pequeno e frágil, inquieto e também sonhador como um menino ao qual só se deseja dar colo e contar histórias de aventuras. Sem dúvida ele tinha algum poder sobre ela, e sobre tudo o mais que também parecia mais belo quando próximo do seu brilho.
Com ele a menina experimentava algo tão etéreo, incomum, algo tão especial que não podia ser mesmo real, mas era.
O mestiço disse-lhe então que não se assustasse pois não eram do mesmo mundo. Cada um surgiu em um mundo diferente e estes eram separados por algo tão grande quanto um mar intransponível, mas a força do desejo de encontrar alguém tão belo quanto a menina o fez deslizar pelo universo tornando-se parte dele, até chegar a um mundo comum como que fosse uma dimensão criada apenas para os dois, onde tudo era belo, perfeito e possível. Eles tinham se comunicado todo esse tempo a partir da força com que cada um desejava o outro como algo complementar a si, como o necessário ao seu próprio equilíbrio, equilibrando assim o seu próprio universo.
Novamente o moço se fizera ruborizado, e após superar uma timidez branda e sedutora, contou que partilhava dos mesmos sonhos que a menina e com isso se ligaram de tal forma que um se tornou o sonho vivo do outro, ultrapassando as dimensões de tempo e espaço para que vivessem algo tão esplêndido quanto sonharam.
A menina então, com seus olhos brilhantes e úmidos, não mediu a emoção ao falar que ele, o moço, o menino-homem, era o sonho mais belo que poderia ter sonhado, mas que desejava que tudo aquilo não se tornasse realidade, pois ela conhecia a realidade e sabia que a experiência pela qual os dois estavam passando não se tratava de outra coisa que não o sonho mais lindo que qualquer encanto de fadas pudesse permitir, e falou assim para se referir a algo profundamente mágico. Pediu ela então que isso pudesse continuar sendo tão incrível quanto havia sido até agora, e a resposta do moço mágico a encantou ainda mais.
Ele sabia realmente como tocá-la...
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
O presente #6
O mistério
Ao completar um ciclo de sua respiração a menina sonhadora percebeu que estava recostada à sombra de uma grande árvore, e espreguiçou-se como quem acorda de um sono profundo e restaurador, sentindo uma alegria incomum para quem já havia passado por tantos encontros e desencontros em seu tortuoso caminho.
Então aquilo tudo tinha sido mesmo um sonho, vaporoso e entretanto bastante consistente...
Ela podia, certa de sua lucidez, lembrar de cada detalhe do que vivera no seu devaneio mais mágico: o universo que aquele ser representava, seus olhos de pérola protegida e seus cristais, sua pele macia como um lençol protetor e aconchegante quando tocada pelo abraço impetuoso da menina, e o cheiro envolvente, calmante e adocicado de sua pele, como cheira a madeira das árvores mais jovens e mais convidativas, além da voz melodiosa que parecia ter sido prevista em cada um dos seus tons e a música, ah... a música ritmada daquele coração!
Aliás, ainda não podia dizer ao certo se era mesmo dele que as batidas vinham ou se a menina conseguira tamanho estado meditativo que pôde ouvir seu próprio coração batendo como se cantasse a vida que por ele passava.
Houve então um suspiro apaixonado.
A menina se recordaria para sempre daquela ilusão como o mais belo sonho de todos que já tivera, que foram muitos por sinal, garantindo-lhe o vocativo de sonhadora. Estava agora satisfeita com o repouso e pronta para enfrentar mais uma etapa de seu caminho inacabável, quando como uma miragem o ser de seu sonho apareceu por detrás do tronco largo da árvore frondosa e perguntou aonde a menina ia.
Desta vez, houve o encanto profundo acompanhando outro suspiro apaixonado, além da incerteza e do mistério...
O que tudo isso quer dizer?
Ao completar um ciclo de sua respiração a menina sonhadora percebeu que estava recostada à sombra de uma grande árvore, e espreguiçou-se como quem acorda de um sono profundo e restaurador, sentindo uma alegria incomum para quem já havia passado por tantos encontros e desencontros em seu tortuoso caminho.
Então aquilo tudo tinha sido mesmo um sonho, vaporoso e entretanto bastante consistente...
Ela podia, certa de sua lucidez, lembrar de cada detalhe do que vivera no seu devaneio mais mágico: o universo que aquele ser representava, seus olhos de pérola protegida e seus cristais, sua pele macia como um lençol protetor e aconchegante quando tocada pelo abraço impetuoso da menina, e o cheiro envolvente, calmante e adocicado de sua pele, como cheira a madeira das árvores mais jovens e mais convidativas, além da voz melodiosa que parecia ter sido prevista em cada um dos seus tons e a música, ah... a música ritmada daquele coração!
Aliás, ainda não podia dizer ao certo se era mesmo dele que as batidas vinham ou se a menina conseguira tamanho estado meditativo que pôde ouvir seu próprio coração batendo como se cantasse a vida que por ele passava.
Houve então um suspiro apaixonado.
A menina se recordaria para sempre daquela ilusão como o mais belo sonho de todos que já tivera, que foram muitos por sinal, garantindo-lhe o vocativo de sonhadora. Estava agora satisfeita com o repouso e pronta para enfrentar mais uma etapa de seu caminho inacabável, quando como uma miragem o ser de seu sonho apareceu por detrás do tronco largo da árvore frondosa e perguntou aonde a menina ia.
Desta vez, houve o encanto profundo acompanhando outro suspiro apaixonado, além da incerteza e do mistério...
O que tudo isso quer dizer?
O presente #5
Um devaneio
Como ela não se cansava de admirá-lo!
Parecia tão irreal tudo o que vinha acontecendo que mesmo ela, a moça sonhadora das mais impossíveis coisas, achou-se incapaz de tamanho devaneio. É certo que toda menina sonha para si algo com tal encanto, mas o que se passava era como uma ilusão vinda de algum torpor mágico e maravilhoso, coberto de desejos e intermináveis satisfações.
Já estava decidido que aquilo não era real. O mestiço era feito de uma fantasia perfeita demais para que não passasse de uma comparação apaixonada. A vida nele, por exemplo, brilhava como a luz de um astro maior ainda que o sol, e aquecia, contagiava, energizava tudo ao seu redor. Aliás, muito dele era parecido com o céu.
Certa vez, ao sentir uma leve brisa tocando seu rosto, a menina dos cachos desviou o olhar e percebeu que a pele de lençol do menino-homem havia sido tocada também por um feixe de luz que escapara pelas frestas dos galhos da grande árvore. O que ela viu era incrível, mais parecia com todo o universo contido no que pode captar a lente de uma luneta. Era escuro, vasto, com centenas de pontos luminosos que se moviam, nasciam e se apagavam ininterruptamente. Ela se deu conta por um instante do quanto estava surpresa com aquilo e que poderia até mesmo estar com uma aparência perplexa, e então o moço se apercebeu do que havia acontecido e tentou lhe explicar do modo mais simples possível, pois nem ele mesmo sabia ao certo o motivo daquilo tudo.
Ele sempre soubera que em cada ser existente, mágico ou não, havia um universo diferente. Era como se o corpo fosse apenas um frasquinho contendo todo o mundo, e cada frasco tinha uma forma diferente de modo que o mundo nele contido se adequasse ao seu propósito, muito embora dificilmente esse propósito tivesse sido conhecido.
Neste ponto da conversa o moço pareceu um pouco envergonhado e a menina lhe perguntou o por quê de tal acanhamento quando parecia que ambos estavam contando seus segredos e o que o menino-homem contara nem era merecedor de tanto pudor.
O moço então lhe disse que havia algo a confessar, que surpreendentemente a menina tão observadora de mistérios alheios ainda não tinha percebido...
E o rubor se fez comum...
Como ela não se cansava de admirá-lo!
Parecia tão irreal tudo o que vinha acontecendo que mesmo ela, a moça sonhadora das mais impossíveis coisas, achou-se incapaz de tamanho devaneio. É certo que toda menina sonha para si algo com tal encanto, mas o que se passava era como uma ilusão vinda de algum torpor mágico e maravilhoso, coberto de desejos e intermináveis satisfações.
Já estava decidido que aquilo não era real. O mestiço era feito de uma fantasia perfeita demais para que não passasse de uma comparação apaixonada. A vida nele, por exemplo, brilhava como a luz de um astro maior ainda que o sol, e aquecia, contagiava, energizava tudo ao seu redor. Aliás, muito dele era parecido com o céu.
Certa vez, ao sentir uma leve brisa tocando seu rosto, a menina dos cachos desviou o olhar e percebeu que a pele de lençol do menino-homem havia sido tocada também por um feixe de luz que escapara pelas frestas dos galhos da grande árvore. O que ela viu era incrível, mais parecia com todo o universo contido no que pode captar a lente de uma luneta. Era escuro, vasto, com centenas de pontos luminosos que se moviam, nasciam e se apagavam ininterruptamente. Ela se deu conta por um instante do quanto estava surpresa com aquilo e que poderia até mesmo estar com uma aparência perplexa, e então o moço se apercebeu do que havia acontecido e tentou lhe explicar do modo mais simples possível, pois nem ele mesmo sabia ao certo o motivo daquilo tudo.
Ele sempre soubera que em cada ser existente, mágico ou não, havia um universo diferente. Era como se o corpo fosse apenas um frasquinho contendo todo o mundo, e cada frasco tinha uma forma diferente de modo que o mundo nele contido se adequasse ao seu propósito, muito embora dificilmente esse propósito tivesse sido conhecido.
Neste ponto da conversa o moço pareceu um pouco envergonhado e a menina lhe perguntou o por quê de tal acanhamento quando parecia que ambos estavam contando seus segredos e o que o menino-homem contara nem era merecedor de tanto pudor.
O moço então lhe disse que havia algo a confessar, que surpreendentemente a menina tão observadora de mistérios alheios ainda não tinha percebido...
E o rubor se fez comum...
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