sábado, 19 de dezembro de 2009

Em branco #01


Dialógica



Sabe, caro leitor, não é fácil sentar aqui com algum tipo de artifício para escrever e sair dialogando com vossa senhoria. Aliás, é fácil sim, certas vezes, quando um escritor qualquer (não qualquer um, mas todos que vos escrevem podem passar pelo mesmo então digamos que eu tentei generalizar) encontra-se explodindo de ideias que já vêm organizadas, enfileiradas e prontas para pular de sua cabeça, boca ou mãos de forma a se materializar como a fumaça que sai do fogo ardente. Aí sim, é fácil. Cuspir delicada e sutilmente cada pensamento ou viagem que permeia a vida inútil de um escritor.

Gostei dessa palavra: permear. "Passar através dos poros", como diria qualquer dicionário consultado.
Pois bem, nem todas as ideias passam facilmente pelos poros, e nem todo escritor é assim tão permeável a elas. Na maioria das vezes leva-se uma eternidade para selecionar, catalogar e por fim mostrar o que nasce de si, e isso quando não morre no meio do caminho, seja a ideia ou o escritor. Outra coisa é que por esse fato de tão necessária ser a transpiração para dar vida a esse diálogo leitor-escritor, quase que escritor algum admite o ofício.
Eu mesma, jamais me diria escritora. Escrevo, sim, mas apenas como meio de conversar sobre nossas queixas, frustrações e esperanças comuns, e vos chamo leitor apenas pelo sentido literal da palavra: aquele que lê.
Não, não, por favor não interprete como mesnosprezo, só estou tentando explicar que o que escrevo não é lá a melhor coisa para se ler.
Vejamos o porquê...


Cada uma de minhas histórias foi mesmo real, não completamente, nos detalhes e em algumas características eu pus fantasia sim, pois de algum modo a leitura deveria ficar mais interessante para ao menos garantir atenção até o final. E lhes digo que foram reais não por serem meros relatos de minhas experiências pois não são, aliás, algumas delas nem mesmo foram experienciadas, mas por representarem mesmo chances de viver coisas novas.

Digamos que a minha velha personagem favorita (os que me acompanham devem saber qual é) tenha encontrado pelo seu caminho alguns livros com lacunas (espaços de páginas em branco) e resolvera escrever nelas para deixar o tal livro todo completinho, sem um espaço sequer.
É assim que tem sido minha vida, como esse livro com lacunas, e eu tento preenchê-las com novas histórias, as quais sempre conto aqui para vocês.
E cada nova sensação, percepção ou fantasia é posta em palavras nessas historinhas que vos falo, e enquanto você me lê, ela vai se tornando real também para mim.









Agora cabe a vossa senhoria julgar as coisas que eu devo ter como reais.
Para isso, não lhe custa ler mais dos meus tapa-buracos...




Inté.